29 Setembro, 2010

A mídia e as eleições

Não é de hoje que a mídia brasileira age de forma cínica em época de eleições. A manipulação de notícias é um fato histórico que causou e causa muito estrago mundo afora. Infelizmente, os movimentos sociais e pessoas que lutam por sociedades mais justas são, frequentemente, as maiores vítmas dessa perseguição.

Sou um cara apartidário e ainda não defini meu voto, mas posso dizer que ele será contra a hipocrisia dos meios de comunicação. Sobre isso, o teólogo e filósofo, Leonardo Boff, escreveu uma matéria que serve de parâmetro para analisarmos a atuação da mídia nas atuais eleições de nosso país. Colei o texto abaixo, mas o original pode ser acessado em: http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=81543&edt=1
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A mídia comercial em guerra

Por Leonado Boff*

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão, em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avaliza a fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o presidente Lula e a midia comercial, que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o presidente e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como famiglia mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo o Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quase desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica, produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vêm Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo, cansado de ser governado pelas classes dominantes, resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes, havia apenas desenvolvimento/crescimento, que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora, ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico, que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela Veja (que faz questão de não ver…), protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocolonial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista? Ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas, para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

26 Agosto, 2010

Pra que serve o amor?

Uma excelente animação, muito criativa e singela. É uma tentativa de compreender o sentido do amor, se é que há algum...


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Música e letra: Edith Piaf: http://migre.me/17Mk1

22 Maio, 2010

Pais Maiúsculos e pais minúsculos

A garota de 11 anos passa por mim chorando. Pergunto o que aconteceu, mas ela não responde. Pergunto aos pais, que vêm logo atrás, e esses também não respondem. Dirijo-me até a garota, que já está no quarto, chorando sobre a cama. Aproximo-me dela e pergunto, mais uma vez, o que houve: "Meus pais não me deixaram sair com minha melhor amiga". Questiono se há algum motivo especial para a proibição. A resposta é apenas mais choro.

Uma coisa que me irrita nessa breve vida é ver uma criança sendo maltratada. Outra coisa bastante difícil é lidar com pais que definem suas atitudes autoritárias como "boa educação". Infelizmente, hoje me deparei com as duas situações ao mesmo tempo. Nessas horas, minha providência instintiva é tentar colaborar de alguma forma, pois não gosto de ver uma criança entristecida. No entanto, minha colaboração é entendida, com certa frequência, como uma interferência negativa na "boa educação" que os pais dizem estar dando. Já me acostumei a ouvir a surradísima frase: "você não tem que dar palpite na educação de MEU filho".

Costumo qualificar como mal informados os pais que se julgam proprietários de sua prole, como se a responsabilidade da educação estivesse restrita somente aos genitores. Pior ainda é ouvir: "um dia você será pai, daí entenderá o que fazemos". Normalmente, dizem isso em tom de ameaça ou mau agouro, previamente assumindo que eu tomarei os mesmos rumos tortos que me tomaram naquele momento.

Há uma terceira coisa que também me irrita nessa estória: ver pessoas iletradas em pedagogia desafiarem alguém que estudou muito essas áreas. Não sou professor à toa, não estudei modelos pedagógicos à toa, não trabalho com educação de crianças e jovens à toa. Ainda me falta aprender muito sobre isso tudo, mas já consegui ler alguma coisa sobre importantes educadores e, apesar de ainda parco, meu conhecimento permite-me farejar autoritarismo à distância. E são os pais autoritários que normalmente dizem: “temos de ser duros com os jovens, nossos pais é que estavam corretos". Regurgitam tudo o que sempre ouviram, sem perceber que a reprodução de suas neuroses não carrega qualquer êxito educacional, nem para si mesmos e muito menos para seus filhos.

Tenho um amigo que diz uma frase sábia: "eles não sabem que não sabem". Pois é assim que tenho visto muitos pais desde que comecei a trabalhar com crianças e jovens, há 15 anos. Simplesmente, os pais ignoram que não sabem pedagogia e que não entendem a mínima de educação infantil ou juvenil. A esses pais desavisados, é importante lembrar que pouco ou nada conseguirão com suas atitudes autoritárias. Normalmente, conseguem o contrário daquilo que procuram atingir. Se querem educação, ganham deseducação. Se querem respeito, ganham desrespeito. Se querem autoridade, ganham filhos que os desafiarão cada vez mais. É por isso que pensei em classificar esses indivíduos de "pais minúsculos". Essa expressão veio à minha mente agora há pouco, quando procurava uma forma de definir esses pais de maneira clara.

Pais minúsculos ignoram os sentimentos e opiniões de seus descendentes, como se fosse natural ignorar pessoas. Impõem suas palavras aos jovens e crianças sem dar espaços para questionamentos. Estabelecem horários, rotinas e regras que mal podem ser flexibilizadas. Dizem que os pais alheios não são educados o suficiente e proíbem seus filhos de conviverem com essa ou aquela pessoa. São preconceituosos e temerosos em relação aos ambientes que seus filhos frequentam, rotulando diversos locais como antros disso ou daquilo. Pais minúsculos, se não tomarem cuidado, criarão filhos também minúsculos, pois transmitem inseguranças, medos e tristeza, ao invés de ensinarem coragem, força e alegria.

"Pais maiúsculos", logicamente, são o oposto de tudo isso. Respeitam os sentimentos e opiniões de crianças e jovens, pois sabem o quão cuidadoso deve ser o processo de construção das futuras gerações. Não impõem suas vontades de forma autoritária, mas compreendem que seus filhos também possuem autoridade e que, dentro de uma família, as autoridades devem ser construídas e respeitadas entre todos. Pais maiúsculos não seguem regras rígidas de horários, vestimentas ou ambientes a serem frequentados. Sabem que esses fatores variam conforme a circunstância e criam filhos flexíveis o suficiente para interagir com um mundo que será cada vez mais diferente do que é no presente. Pais maiúsculos reconhecem seus eventuais preconceitos e evitam passá-los a seus filhos, pois sabem que isso poderá produzir seres humanos também preconceituosos.

Reconheço a dificuldade em lidarmos com muitos desafios da educação formal e informa, e espero que esse texto não soe como moralista aos leitores. Sei que conversar, dialogar e brincar com crianças e jovens é um desafio e tanto, onde todos nós temos limitações para criar ambientes continuamente construtivos. No entanto, volto a alertar que o autoritarismo é a pior estratégia nesses processos, algo que deve ser evitado a todo custo.
Por favor, façam isso em prol das futuras gerações.

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Imagem: http://migre.me/Hxnv

07 Maio, 2010

O fim da morte

Faz poucos dias que li uma interessante reportagem sobre o "fim da morte". Trata-se de uma matéria sobre os avanços da medicina e seus impactos em nosso breve futuro. Dentre os temas abordados estão as células-tronco, a nano medicina e a produção de órgãos artificiais. Achei surreal a possibilidade de podermos discutir, ainda no início do século XXI, a possibilidade de a ciência vencer a morte. Você pode ler a matéria na íntegra em http://migre.me/A7NB

Caso também ache a reportagem surreal, podemos discutir algumas questões que passaram a me inquietar desde então, como:

- Como reestruturaríamos a moral e a ética humana diante da possibilidade de sermos imortais?

- Como agirão os crédulos diante da possibilidade de não serem mais julgados após morte?

- Como serão estruturados os sistemas de trabalho, saúde, alimentação e habitação? O fim da morte permitirá que gerações se sobreponham, mas haverá sistemas sociais que contemplem todos esses sobreviventes?

- Como serão nossas relações profissionais? Uma expectativa de vida ilimitada permitiria que tivéssemos várias carreiras durante uma longa vida. Poderíamos ser médicos durante 60 anos, poetas por mais 40 e jornalistas por mais 50.

- Como ficam as religiões e suas teorias sobre o mundo metafísico? Jogaremos tudo por água abaixo ou criaremos comunidades onde será permitido morrer em paz, de acordo com a religião de cada grupo?

- Caso não gostemos da ideia de vida eterna e optemos por morrer à moda antiga, quem teria coragem de sofrer e acabar com si mesmo, tendo a oportunidade de permanecer vivo e saudável?

Sei que toda essa elocubração pode parecer sem sentido, mas várias coisas sem sentido transformam-se em realidade a cada novo dia desse século XXI. Se continuar assim, esse blog terá quem o alimente até o século XXII, no mínimo...
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Imagem: http://migre.me/CROb

05 Maio, 2010

Tu amas?

Responda com sinceridade: você já amou alguém sem sentir ciúmes? Já viveu uma relação onde não havia cobranças? Já se sentiu feliz quando seu parceiro(a) lhe avisou que faria uma viagem sozinho(a)? Já aceitou o término de uma relação desejando boa sorte no próximo relacionamento dele(a)?

É... eu sei... talvez só um louco dissesse "sim" diante dessas questões. Afinal, costuma-se dizer que é impossível amar sem sentir ciúmes. Ou que é impossível sublimar o apego a ponto de se dizer: - Boa viagem, amor! Envie umas fotos das férias na praia!

Não seria estranho se você me dissesse que não respondeu um "sim" sequer às perguntas acima. Se isso é mesmo verdade, sugiro que repense sua forma de se relacionar com o próximo, pois todos os sentimentos que cultivou até hoje podem ser simplesmente tudo, menos amor.

Ah... ok... você acha exagero de minha parte afirmar isso! Acha que amar tem, realmente, a ver com ciúme... que uma certa dose de possessividade é inerente às relações. Se bobear, ainda dirá que ciúme é uma forma de mostrar seu sentimento de afeto pelo próximo. Bem... caso pense mesmo assim, seus argumentos assemelham-se a chavões que costumo ouvir quando toco nesse assunto. Infelizmente, conheço bem esse falatório, pois eu mesmo já o usei nas relações afetivas de minha vida.

Fiz 40 anos em fevereiro passado, tempo suficiente para compreender que "amor" significa muita coisa, menos ciúme, medo, apego ou qualquer sentimento menos nobre. Obviamente, cheguei a essa compreensão após ter feito tudo ao contrário, ou seja, após ter nutrido os piores sentimentos em nome daquilo que eu também considerava como "amor". Lógico que não fazemos isso o tempo todo. Mas, quando o assunto é relação a dois, corremos o risco de enlouquecermos em tempo integral, caso não tomemos cuidado com o conceito de amor que adotamos.

Faz tempo que me dedico a exercitar somente meus talentos afetivos, tentando controlar falhas emocionais corriqueiras, como ciúmes, insegurança e medo de perder quem está ao meu lado. Já avancei alguns passos nesse processo, mas é necessário um treino constante para chegar a esse ponto, numa constante luta contra a própria escuridão. Lógico que há recaídas em alguns momentos, mas, na média, meus esforços têm dado resultado.

Após tantos tropeços, amar, para mim, significa nutrir a própria confiança, fortalecer a própria coragem e compreender os próprios limites. Sem essas premissas, não se consegue estruturar o outro a sua volta. Parece simples quando se fala, mas não é simples quando se faz. É por isso que, quando me pedem, dou minha receita e procuro deixar a pessoa livre em sua própria jornada de descoberta do amor. Minha única expectativa é, um dia, encontrar essa mesma pessoa e perguntar: - Amaste? E receber letras maiúsculas como resposta: - AMEI.

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