10 outubro 2008

Palavras de Marina

O texto abaixo não é meu, mas essas sinceras e doces palavras fizeram a diferença em meu dia. O texto é de Marina, uma pessoa querida que não encontro há muito tempo, mas que posso sentir em cada frase que foi escrita. Foi como se eu recebesse as palavras de suas próprias mãos...

Palavras de Marina

Pareço idiota... aos olhos superficiais e inquietos... mas só pareço. Acredito na paciência e na serenidade... acredito no amor... me emociono com as coisas belas da vida, da natureza... não perco a oportunidade de dar um sorriso sincero.... ou de deixar cair as lágrimas que afogam meu coração... Não acredito na felicidade que a maior parte das pessoas buscam... uma boa balada, muita grana, alguém para passar a noite.... Acredito que nós somos perfeitamente capazes de construir e sustentar a felicidade nas nossas vidas, com um pouco de maturidade para fazer as escolhas certas, bom humor para passar as horas difíceis... Hoje o que mais me faz feliz é o sorriso das minhas sobrinhas, o carinho sincero dos meus alunos, a companhia de amigos-irmãos tão fiéis que tem me ensinado tanto a amar mais e mais, a certeza de que eu estou amadurecendo meu espírito na busca de uma felicidade verdadeira, e não ilusória. Ainda busco um amor que consiga manter-se assim, acredito e confio a minha vida a Deus, que conhece meu coração mais do que eu mesma e sabe o que eu preciso, mereço e posso. Sei que tem me libertado de relações doentes que o meu coração quis teimar e persistir, por carinho e compreensão, paciência e vontade... nem sempre as pessoas entendem tudo isso... por isso iniciei dizendo que aos olhos dos outros eu posso, muitas vezes parecer sim uma tonta, às vezes até eu mesma me cobro por ser assim... calma... eu só sei que eu não quero sentir raiva... não quero sentir raiva de ex, nem de chefe, nem de ninguem... embora as vezes seja difícil.

Não sei o que é certo ou errado, pois muitas vezes eu mesma me pego errada.... na verdade a linha entre minhas qualidades e tantos defeitos é por vezes tão tênue, tão discreta que frequentemente sinto dificuldade em percebê-la... Semana passada um homem (que tinha acabado de conhecer) olhou dentro dos meus olhos e me disse... -Poucos amam como você. E me emocionei porque nós nem haviamos conversado... mas ele enxergou a minha alma... E eu pergunto... O que é certo? Amar verdadeiramente ou não? O que todos nós buscamos tanto e sabotamos tanto simultaneamente? É como dar braçadas e braçadas e não conseguir sair do lugar, das duas formas, da primeira não somos compreendidos, da segunda nós mesmos não nos compreendemos. Só sei que desejo a todos que possam sentir um pouco dessa forma bonita de amar e valorizar as coisas, os momentos e as pessoas que cruzam nossos caminhos.

Sigo então alegremente os meus dias, percebo a cada dia que não tenho motivo algum de que reclamar... pois como diz um amigo meu..."O riso é o combustível da alma, nos faz palpitantes e acima de tudo nos traz a calma". Eis que a minha alegria tem-me mantido calma diante de cada desafio que me é apresentado nessa vida. E se tiver algum valor.... pegue para você que se deu o trabalho de ler esse imenso desabafo o meu mais sincero desejo de que você possa se conhecer e ser verdadeiramente feliz! Muito, muito obrigada aos que puderam compreender minhas palavras... sinto muito aos que não puderam. Deus nos abençoe! Amém!

07 junho 2008

Espiritualidade sem religião

"Não preciso de religião para exercer minha espiritualidade". Frase dita por um amigo, numa dessas conversas despretensiosas no café da faculdade. Parece simples quando se diz, mas há algo nessa frase que muita gente parece não ter compreendido: não é necessário ser adepto de certa religião para se ter fé ou se relacionar com Deus, com Jesus, Buda, Alá, Maomé, Ogun ou qualquer outro ser considerado divino. Tão pouco é necessário freqüentar igrejas, catedrais, templos, centros e terreiros para exercitarmos nossa espiritualidade.

Independente de qualquer religião, pode-se praticar a fé em casa, no trabalho, na rua, na balada, no cinema, com a pessoa que se ama, com as pessoas que não amamos, com os animais, com a natureza, enfim, em qualquer tempo e lugar. Também não é necessário crer em apenas uma só tradição para por em prática toda essa fé. Afinal, nenhum dos grandes nomes das religiões é propriedade desta ou daquela vertente religiosa. Jesus Cristo, por exemplo, não fundou uma religião ou filosofia, apenas encarou a estrutura social de sua época de forma crítica.

Já o Budismo nasceu a partir dos ensinamentos de Sidarta Gautama, mas não há registros de que seus princípios devessem ser seguidos à risca ou de forma dogmática. Da mesma forma, não deveria haver dogmatismos para Lao Tse, responsável pelas linhas que compõem o Tao Te Ching, a "bíblia" do Taoísmo. O mesmo serve para Confúcio, um filósofo e pensador chinês que já abordava altruísmo e compaixão em 500 a.C.

Não pretendo, em poucas linhas, negar a importância das religiões. Logicamente, há ótimos ensinamentos e práticas em todas elas, além de muitos movimentos e grupos religiosos que lutam pela dignidade da vida em todos os sentidos. Da mesma forma, não há como ignorar o lado obscuro de cada religião, onde todas desviam de seus propósitos e percorrem becos completamente sem saída, como a enganação, a exploração financeira e a doutrinação cega.

A vida sem religião parece impossível para a humanidade. O que faríamos com os líderes espirituais se compreendêssemos que cada um de nós possui uma liderança espiritual inata? O que faríamos com todos os santos e santas se vislumbrássemos que já nos foi dado todo o poder divino para enfrentarmos nossos problemas? E se concebêssemos Deus de forma diferente da habitual? Que tal se ele fosse mulher, talvez seja negro, talvez oriental, quem sabe uma índia, um hippie, baixinho, alto, gordo, magro. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo, pode não ser nada disso.

Normalmente, as pessoas desconversam quando toco nesse assunto. Tudo bem, sei que não é fácil discutir crenças tão enraizadas. Mas continuo torcendo para que cada pessoa passe a buscar sua fé não somente nas igrejas, nos templos, nas imagens ou nos crucifixos. A partir desse momento, a religião não será mais necessária. Para ser sincero, creio que muita coisa melhoraria com isso...

27 outubro 2007

A criança, o dromedário, o leão e os cordeiros

Desde crianças, escutamos e lemos fábulas repletas de metáforas sobre a condição humana. Muitas dessas estórias tendem a incutir valores nem sempre positivos nas desavisadas mentes infantis. Também existem fábulas que estimulam o senso crítico e a criatividade, mas essas pouco são contadas. A estória a seguir é uma delas...

Essa fábula passa-se num distante reino, coincidentemente chamado Planeta Terra. Nesse reino, as crianças eram tratadas de forma bastante peculiar. Mal ensaiavam seus primeiros passos e a palavra mais importante que aprendiam era "NÃO".

No início de suas vidas ainda vibrantes, quase nenhuma importância davam ao significado daquele som. Porém, em apenas alguns anos, a repetição constante fazia com que todas as crianças aprendessem o significado do NÃO. Nessa fase, formava-se uma pequena corcova nas delicadas costas daqueles pequenos seres. As crianças mal percebiam a tímida metamorfose, mas seus pais - e toda a sociedade - já olhavam com orgulho aquela transformação. Era o sinal de que a situação corria conforme planejada.

Poucos anos após o início desse processo, a pequena corcova, agora com tamanho considerável, começava a incomodar. Nessa fase, quase todas as crianças freqüentavam escolas apropriadas para reforçar essa transformação. Também já recebiam os primeiros ensinamentos de suas futuras religiões, além de outros códigos de moral e conduta.

Havia muitos tipos de escolas e religiões no Planeta Terra, quase todas dispostas a aumentar o tamanho da corcova. A receita para aumentá-la era simples: doses rígidas de educação, quantidades ínfimas de questionamento, muitas pitadas de rigorosos valores religiosos, sempre acompanhadas de ingredientes como moral e culpa. Para completar, onde quer que estivessem, as crianças eram cuidadosamente vigiadas por algum sentinela de plantão. Brincadeiras e iniciativas eram podadas aqui e ali, sempre interrompidas com a palavra mágica "NÃO".

Quando chegavam à adolescência, as crianças já não mais se pareciam com seres humanos. Todas elas haviam se transformado em dromedários, mutação provocada pelo aprendizado das regras sociais, da rígida educação, da moral religiosa, da culpa e, logicamente, pelos anos de repetivivos "NÃOS". Somente grandes corcovas poderiam suportar toda essa carga, por isso as crianças assumiam a forma de dromedários. A essa altura, muitos sequer percebiam o peso sobre suas costas, de tão habituados a ouvir as verdades que lhes eram impostas. Por sorte, era justamente nessa fase que alguns dromedários descobriam uma palavra quase nunca pronunciada naquele planeta: o "SIM". Poucos haviam aprendido a utilizá-la quando crianças, mas parecia algo instintivo para alguns.

Conforme um ou outro dromedário repetia o "SIM", iniciava-se uma nova transformação. Seus corpos modificavam-se brutalmente e a pesada corcova desaparecia. Passavam, então, a ser comom leões. Pareciam muito mais ameaçadores nessa nova forma, mas estavam apenas mais confiantes e conscientes da força que um dia quase fora apagada de suas mentes e de seus desejos.

Os leões, então, passavam a combater cada "NÃO" com sonoros e repetitivos "SIM". Não era fácil para pais, educadores e religiosos aceitarem aquela palavra de desafio, afinal, o método "NÃO" prevalecia há muito tempo no Planeta Terra. Era nessa fase que ocorriam duros embates entre os leões e aqueles que diziam "NÃO".

Apesar de serem fortes, milhares de leões sofriam com os preconceitos e discriminações que lhes eram impostos durante esse período. Para uma sociedade que esperava outro tipo de mudança, discriminar os diferentes era a única opção. Faziam isso porque se sentiam ameaçados.

Para que a ameaça não se concretizasse, muitos leões eram colocados em clínicas de recuperação ou mesmo acusados de serem falsos leões. Muitos eram excluídos da sociedade, alguns eram literalmente abatidos, mas muitos acabavam assumindo posições onde podiam lutar contra as regras.

Nessa fábula, havia uma última e trágica transformação, que atingia os dromedários que não haviam seguido os passos dos leões. Essa transformação ocorria quando os dromedários perdiam toda e qualquer iniciativa de pronunciar um único e tímido "SIM". Após anos e anos de intensos "NÃOs", só lhes restava um destino: transformavam-se em cordeiros e essa era a condição definitiva de todos.

Quando chegavam a essa fase, apenas sabiam repetir o que seus pais, seus professores, religiosos e outros velhos cordeiros lhes haviam ensinado. Pior que isso. Passavam a perseguir os poucos leões que restavam naquele planeta, atacando-os com os intensos "NÃOS" finalmente incorporados.

Os leões, apesar de estarem em menor número, já não se incomodavam mais com aquilo. Haviam aprendido o difícil caminho do "SIM" e era isso que importava. Dessa condição, passariam a planejar a transformação de todos os cordeiros do Planeta Terra. Tinham consciência de que seria um longo processo. Mesmo assim, preferiam acreditar que isso era, "SIM", possível de se alcançar.

Inspirado na fábula que ilustra o livro "Assim falou Zaratustra", de Friedrich Niestzsch.
Imagem: representação gráfica do signo de Leão - The ProSim Project



10 junho 2007

Reativando...

7 de agosto de 2006. Foi quando escrevi minha última postagem para este esquecido blog. Dez meses depois, decidi colocá-lo na ativa novamente.

Faz falta escrever, a gente perde o jeito, perde as palavras, perde a melhor forma de estruturar uma frase... mas vou recuperando isso aos poucos. Quero aproveitar o pique para relatar, ainda que em breves flashes, o que ocorreu nesse período.

Parte 1 - Em 9 de agosto do ano passado tive a sensação de perder alguém sem ter perdido. É estranho o sentimento que uma grande distância geográfica pode nos provocar. O chão desaparece por algum tempo e o próprio tempo adquire outra dimensão. Muito mais lenta, por sinal. O silêncio, que não era ouvido, começa a se fazer presente. O presente, que não era sentido, passa a durar cada eterno segundo. As noites, antes pouco vistas, passam a ser como o dia. Aprendi que há uma finalidade nesse processo... ajuda-nos a mobilizar forças que permaneciam latentes e alavancar planos não planejados. Coloca-nos num estado de prontidão onde toda a energia converge para um ponto que sequer existia. Passa-se a refletir como nunca e até mesmo a conversar com aqueles que apenas aguardavam o início do diálogo. Fase de instrospecção pura, necessária e dolorida. Tão dolorida que chega a deixar marcas físicas, algumas difíceis de se curar.

Parte 2 - Floyd Rowry é um morador da cidade de São Francisco, Califórnia. Conhecio-o quando ele tentava vender jornais para apoiar o movimento dos sem-teto americanos. Parei para comprar o Street Spirit e a conversa se estendeu. A situação dos homeless é um contraste gritante para aqueles que andam pelas ruas endinheiradas dos Estados Unidos. Floyd era um cara esclarecido e consciente sobre seu papel e sobre sua tragédia social naquele momento. Não estava na rua à toa, problemas familiares e econômicos lá o colocaram. Não estava faminto, como é comum nos brasileiros abandonados à míngua. E tinha a clara noção de que Tio Sam e companhia poderiam resolver aquela situação, se realmente quisessem. Não só a situação do Floyd, mas dos milhares de homeless que perambulavam pela Market Street e outras tantas ruas dos EUA. Floyd tornou-se uma boa companhia. Fizemos um trato: ele me dava algumas aulas de inglês "de rua" e eu lhe pagava o que podia. Em nossas conversas, expliquei-lhe o motivo de minha inesperada ida aos EUA. Por coincidência, ambos estávamos ali por razões bem semelhantes. Floyd foi um grande amigo durante um bom tempo. Boas conversas, boas risadas, alguns choros e vários questionamentos, ambos tentando compreender as peças que a existência nos prega sem aviso prévio.

Parte 3: Cláudia também estava lá para me apoiar. Aliás, seu apoio começou bem antes de minha partida. Amável, inteligente e dinâmica, muito dinâmica. Do tipo que toma decisões rápidas e acertadas, sem pensar muito. Aliás, nela não há aquela linha de separação entre o pensamento e a decisão, tudo acontece ao mesmo tempo, sem inseguranças e meio termos. Uma pessoa rara, que equilibra intelectualidade e espiritualidade com extrema clareza. Ajudou-me muito, clareou meus pensamentos, apoiou meus projetos, incentivou minhas atitudes, indicou a direção que deveria seguir em terras ainda desconhecidas. Assim como Floyd, foi um tremendo suporte emocional, que surgiu na hora certa e distanciou-se no momento exato. Entrou e saiu de cena temporariamente, cumprindo à risca seu papel.

Parte 4: Creio que o Evandro desvendou o segredo das mulheres: "- Quando elas disserem sim, é não. Quando elas disserem não, é sim". Soou engraçado naquele momento, mas na eterna tentativa de entendimento entre os sexos, essa simples verdade parece ser lei. Já estava em Berkeley nesse momento e foi meu caro amigo o responsável por clarear algumas angústias que insistiam em me acompanhar. Grande figura, humor totalmente à prova de bala, alto astral até quando as coisas nao iam tão bem. Orientador perfeito para quem busca boas dicas de eletrônicos e similares em qualquer lugar do mundo. Fotógrafo profissional, ensinou-me alguns truques para se fazer mágica no momento de tirar uma foto. Estou treinando até hoje e os resultados têm melhorado. Elisa também estava lá, assim como Nitti, Alex, Patrícia, Mr. Greg e Tammy. Todos grandes amigos, souberam ser solidários nos momentos mais precisos.

Parte 5: Sherry e Victor formam um casal especial e moram numa bela casa nos subúrbios de Berkeley. Foi ali que passei o final de dezembro e o início de janeiro, ajudando a cuidar das coisas enquanto estavam ausentes. Dali partia, diariamente, para meus passeios de bicicleta, que cruzavam boa parte de Berkeley, cortavam a universidade e, invariavelmente, acabavam na casa da Delaware Street, o ponto de parada mais aguardado do dia.

Parte 6: Se não fosse por uma única pessoa, isso tudo sequer teria começado. Do inesperado e-mail que nunca deveria ter enviado, da visita a Yosemite até a correria de última hora no aeroporto, tudo passou pela motivação de estar próximo a ela. Os incansáveis jantares no restaurante tailandês, os numerosos cafés e cookies, os diversos passeios, natal, ano novo... cada dia tinha sua participação, ainda que fosse apenas em pensamento. Desde agosto de 2006, quando tudo teve início, meu norte foi invertido. Passei a agir mais instintivamente, deixando a tão praticada racionalidade de lado. Repensei hábitos arraigados, reformulei planos, propus decisões bastante sérias. Não foi fácil explicar-lhe em que ponto iniciou-se toda essa avalanche, só posso afirmar que realmente aconteceu e que foi muito sincera. Hoje, olhando pelo retrovisor, vejo que meu instinto guiou esse processo em velocidade máxima, sem me dar qualquer oportunidade de acionar o freio. Não posso dizer que a empreitada deu certo ou errado, mesmo porque a situação não se dividiu entre o sim e o não. Só posso afirmar que tudo foi apenas diferente do que havia sido até aquele momento.

Final: Estou cá novamente, com as lições literalmente incorporadas. No momento, preocupo-me em fazer alguns pequenos reparos na máquina de órgãos e ossos que se exauriu completamente. Preciso acumular energias para levar o Pan adiante. Dez meses agitadíssimos, sem dúvida. E ainda sinto que a melhor parte está por vir...


07 agosto 2006

A lógica do PCC

Desde que escrevi pela última vez neste blog, muito vi e ouvi falar sobre o PCC. Hoje mesmo, São Paulo acordou com um pouco mais do agito da facção. Como de hábito, a questão voltou a ser tratada da forma mais superficial possível: bandidos de um lado; policiais, Estado e sociedade de outro. Bem e Mal separados pela costumeira miopia social. É trágico ouvir a solução esbravejada pela maioria das pessoas: "- Melhor matar esses caras mesmo!".

Em maio passado, quando o PCC fez sua festa de inauguração em São Paulo, muitos supostos "pccistas" foram mortos nas periferias dessa gigantesca cidade. Solução inefetiva, obviamente, pois o combustível do PCC vem da desigualdade social enraizada em nosso país. Exterminar a violência à bala é assumir que a miséria não tem solução, é usar gasolina para apagar o fogo.

O agora famoso Marcola, considerado o cérebro do PCC, foi menino de rua na Praça da Sé. Neste exato instante, muitos futuros "Marcolas" continuam lá, expostos a todo tipo de carência e violência. De violência ainda pior nasceu o PCC, gerado no interior da Casa de Custódia de Taubaté, presídio de segurança máxima do interior de São Paulo. Nasceu, especificamente, em um dos anexos desse presídio, conhecido como "Piranhão". O nome já diz tudo: era o local onde os condenados mais perigosos sofriam constantes torturas e maus-tratos, métodos de reabilitação tradicionais no sistema penitenciário brasileiro. Foi assim que nasceu o Primeiro Comando da Capital, um grupo criado para defender aqueles que deveriam ser reabilitados através de políticas públicas decentes. Foi nesse cenário de degradação que Misael Aparecido da Silva, um dos fundadores do PCC, escreveu a carta de fundação do partido, em 1995. Deixo-a transcrita abaixo, como forma de registrar o alerta não ouvido há 11 anos. A carta está na edição extra da revista Caros Amigos, nº 28, maio de 2006. Boa leitura.
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"Não somos uma organização criminosa, muito menos uma facção, não somos uma utopia e sim uma transformação e uma nova filosofia: Paz, Justiça e Liberdade. Fazemos parte de um comportamento carcerário diferente, em que um irmão jamais deixará outro irmão sob o peso da mão de um opressor; somos um sonho de luta, somos uma esperança permanente de um sistema mais justo, mais igual, em que o oprimido tenha pelo menos uma vida mais digna e humana.

Nascemos num momento de opressão, em um campo de concentração, e sobrevivemos através de uma união. A semente foi plantada no asfalto, no cimento; foi regada a sangue, a sofrimento. Ela gerou vida, floresceu, e hoje se tornou o braço forte que luta a favor de todos os oprimidos, que são massacrados por um sistema covarde, capitalista, corrupto – um sistema que só visa massacrar o mais fraco. O sistema insiste em nos desmoralizar com calúnias e difamações; nos rotulam como monstros, como anti-sociais, mas tudo isso é parte de uma engrenagem que só visa esconder uma realidade, uma verdade, ou seja, o sistema precisa de um bode expiatório.

Muitos irmãos já morreram nessa luta desigual, muitos se sacrificaram de corpo e alma por um ideal. O que o sistema negava, o que ele repudiava, hoje ele é obrigado a admitir que existe. O próprio sistema criou o Partido. O Partido é parte de um sonho de luta; hoje somos fortes onde o inimigo é fraco. A nossa revolução está apenas começando; hoje estamos preparados, psicologicamente, espiritualmente e materialmente para dar a nossa própria vida em prol da causa. A revolução começou no sistema penitenciário e o objetivo é maior, revolucionar o sistema governamental, acabar com este regime capitalista, em que o rico cresce e sobrevive massacrando a classe mais carente.

Enquanto crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não tiverem oportunidade de uma alfabetização, de uma vida digna, a violência só se tornará maior. As crianças de hoje, que vendem doces no farol, que se humilham por uma esmola, no amanhã bem próximo, através do crime, irão, com todo ódio, toda rebeldia, transformar seus sonhos em realidade, pois o oprimido de hoje será o opressor de amanhã.

O que não se ganha com palavras se ganhará através da violência e de uma arma em punho. Nossa meta é atingir os poderosos, os donos do mundo e a justiça desigual; não somos criminosos por opção e sim somos subversivos e idealistas. Se iremos ganhar essa luta não sabemos, creio que não, mas iremos dar muito trabalho, pois estamos preparados para morrer e renascer na nossa própria esperança de que nosso grito de guerra irá se espalhar por todo o país. Pois se derramarem nosso sangue, com certeza aparecerão outros que irão empunhar armas em prol de uma única filosofia: Paz, Justiça e Liberdade. Se tivermos que amar, amaremos; se tivermos que matar, mataremos".

16 maio 2006

Sobre o PCC e as futuras rebeliões

" – Pessoal, estamos dispensados. 'Simbora' que a coisa tá feia".
Frase de um professor, colega de trabalho, pouco antes das 16 horas dessa segunda-feira. Passou pela sala, deu o aviso e sumiu. Até aquele instante, ninguém havia dito que seríamos dispensados. Duvidando, fui até a saída da faculdade para comprovar o fato. Encontrei a portaria quase fechada, a secretaria já trancada e alguns seguranças aguardando os últimos saírem. Convencido da retirada, voltei, ajeitei minhas coisas, peguei minha mochila e tomei o rumo dos demais. Não sem antes ouvir a recomendação do segurança: " – Tome cuidado... metralharam a estação Ana Rosa". Excelente notícia, justamente para onde me dirigia. Para minha sorte, apenas boato, como descobriria mais tarde.

Uma amiga convidou-me para ir a sua casa. Achei que não era necessário. Sugeriu-me que fizesse outro caminho. Disse-lhe que não precisava e segui meu trajeto tradicional. Tentei ligar para alguns colegas, mas o celular não funcionava. Na cidade dos congestionamentos, até os celulares estavam com trânsito em excesso. Quatro e pouco estava em casa. Eu e mais cinco milhões de pessoas. Os outros cinco ainda estavam a caminho, travados no trânsito após deixarem suas ocupações para trás. Comércio fechado, ruas quase vazias, pessoas em passo acelerado. Um êxodo digno de entrar para a história, como parece que entrou.

Cá estou, cidadão recluso, sem direito de ir, só de ficar. Não achei exagero quando um repórter da tv referiu-se ao "clima de 11 de setembro" provocado pelas ações do PCC em São Paulo. Milhões trancando-se em casa, muita sirene, muitos helicópteros, policiais desconfiados de qualquer cidadão que se aproximava. Mas, por mais inusitada que parecesse a situação, não a estranhei muito. Faz tempo que ecoa o tic-tac dessa bomba relógio pelas ruas de Sampa e do Brasil. Registrei isso em alguns textos desse blog. Já mencionei que somos potência olímpica na corrida de desigualdade, recordistas mundiais de concentração de renda, especialistas em desrespeito aos direitos humanos, nação contaminada há séculos pelo parco espírito público de seus governantes. Bases explosivas sobre as quais edificamos nosso país, berço esplêndido daqueles que nos atacam, pátria amada onde se formam, cotidianamente, os integrantes do PCC.

A receita se completa quando são adicionadas doses extras de corrupção policial, de lotação carcerária, de descaso de nossas instituições e autoridades. Tantos ingredientes misturados só poderiam produzir essa reação química. Para ser sincero, achei que a reação viria das ruas, não dos presídios. Era a população excluída que mais parecia propensa à revolta. Afinal, é ela a mais atingida por todos os descasos desse país, inclusive dos PCCs da vida. Talvez ainda aconteça. Talvez a verdadeira bomba relógio ainda esteja para explodir. Nossa desigualdade social é a contagem regressiva de futuras rebeliões. Só espero não estar por aqui. Para mim, bastou o dia de hoje.

09 maio 2006

A pegada ecológica

Em tempos de freqüentes discussões sobre desenvolvimento sustentável, não se espante se alguém lhe disser que a população mundial está a uma "pegada" da extinção. Pode ter certeza de que não é uma metáfora. Também não estranhe se adjetivarem o termo e lhe disserem que sua "pegada ecológica" é um risco ao nosso planeta. Se você ainda não ouviu esse tipo de conversa, ouvirá em breve.

Dentre os estudiosos e partidários do desenvolvimento sustentável, "pegada ecológica" (footprint, em inglês) significa o rastro que cada ser humano deixa no planeta para viver. Dito de outra forma, é a quantidade de recursos naturais que cada um de nós consome para suprir as necessidades diárias de alimentação, moradia e locomoção, só para citar os itens mais básicos.

Não é novidade que vivemos um período de insustentabilidade no planeta Terra. A agressiva produção industrial do século XX, acompanhada de nosso consumo pouco consciente, produziu níveis inimagináveis de degradação ambiental. Poluição do ar, esgotamento da terra, escassez de alimentos e falta de água potável são os exemplos mais evidentes. Olhamos para esses cenários com extrema indignação e ainda apontamos o dedo da culpa para os países mais industrializados. Pois bem, se você é um desses que está com o dedo apontado, é melhor abaixá-lo. A responsabilidade também é sua, e não é pequena.

O conceito de "pegada ecológica" é a ferramenta que permite mensurar a participação de cada indivíduo no processo de degradação de nosso planeta. Permite-nos avaliar o impacto de nossas opções diárias de consumo no meio ambiente, estimando a quantidade de recursos naturais necessários para produzir os bens e serviços que nos sustentam, bem como os resíduos que geramos. De acordo com esse conceito, cada ser humano necessita de uma quantidade mínima de espaço natural produtivo para atravessar toda sua existência.

É como se, no dia de nosso nascimento, ganhássemos um lote terra (exatamente 1,7 hectare/habitante) de onde extrairíamos toda nossa alimentação, toda nossa água e todos os meios necessários para uma condição de vida digna. Seria o espaço de nossa moradia, de produção de nossos bens e, logicamente, de depósito de nosso lixo. Caso um de nós decidisse aumentar o tamanho de seu lote, o vizinho seria prejudicado e não teria recursos suficientes para sobreviver dignamente. Caso muitos decidissem multiplicar as dimensões de seu espaço, outros muitos ficariam à margem do sistema, sobrevivendo à míngua. Caso muitos gerassem resíduos em excesso, muitos outros lotes receberiam uma sobrecarga inviável desses resíduos, a qual afetaria o clima de todo o sistema.

Na prática, o cálculo da pegada ecológica sinaliza que nosso padrão de consumo individual é insustentável em larga escala. Se você fez o cálculo a partir do link acima, já deve ter percebido que utilizamos recursos que requerem muito mais do que 1,7 hectare para suprir nossas necessidades. Os mais abonados, por exemplo, expandiram suas cercas para 7 hectares, aproximadamente, o que significa que a produção de nossos alimentos, moradias, carros, roupas, calçados e tecnologia, bem como os resíduos gerados a partir daí, requerem muito bem mais do que o espaço que ganhamos ao nascer. E se ocupamos esses hectares a mais, acabamos tirando o espaço de sobrevivência dos menos afortunados.

Pior ainda, se quiséssemos que todos os atuais seres humanos excluídos tivessem um padrão de vida semelhante ao nosso, não haveria, em toda a Terra, recursos naturais suficientes para tamanha demanda. Basta olharmos para o lado para constatarmos a escassez de água potável enfrentada por parte da população mundial, assim como a impossibilidade de acesso à habitação e alimentos de boa qualidade que essa população enfrenta. Para resolver o problema, seria necessária uma reengenharia global em prol do bem estar de todos. Em nosso atual estágio de desenvolvimento, a única saída seria reduzirmos o tamanho de nossas propriedades e a utilização dos bens que nos confortam cotidianamente. Tarefa impossível num curto espaço de tempo, mas necessária para a continuidade da vida na Terra.

É difícil encarar os fatos, mas só podemos manter nosso atual padrão de vida se boa parte da população mundial continuar à margem desse mesmo padrão de consumo. Não há solo, nem água, nem plantações que agüentem o consumo de 6,5 bilhões de pessoas. Se quisermos assegurar condições dignas para a existência das futuras gerações, teremos de viver de acordo com os limites da Terra, não de acordo com nossas vontades de consumo. Mas antes que as futuras gerações cheguem, milhões de seres humanos continuarão caminhando à beira do abismo da exclusão. Para esses, cada pegada será mais um passo em direção ao precipício.

25 março 2006

Rezemos para vmat2

"Se Deus existe, por que Ele não faz alguma coisa?". Muitos seres humanos já fizeram essa pergunta, para si ou para outros, em algum momento de inconformismo ou desespero. Eu mesmo já me perguntei algumas vezes. Faz todo sentido perguntar, pois não é fácil compreender como um ser que habita o andar de cima, carregando tantos supostos poderes, pode consentir tamanhos absurdos na existência humana. Dizem-me que Ele age assim porque sabe o que faz, porque tem a absurda mania de escrever certo por linhas tortas. Escuto isso desde minha infância, mas a lavagem cerebral ainda não surtiu efeito. A não ser por esse pronome "Ele", que só consigo escrever em letra maiúscula.

Considero uma ideologia de conto de fadas a crença em Deus da forma como ela está estabelecida: um ser divino, altruísta e benevolente, criador de toda a vida e que olha por nós a todo instante, pronto para resolver nossos problemas cotidianos. Fosse assim como o pintamos, não teria deixado o próprio filho padecer nas mãos dos neuróticos que Ele mesmo, segundo consta, teria criado à sua imagem e semelhança. Também não permitiria que outros tantos filhos tivessem atravessado a história da humanidade em meio ao sofrimento da miséria, da tortura, da incompreensão, da violência gratuita e da intolerância. É mais razoável assumir que Deus, caso de fato exista, seja o próprio paradoxo e contradição em pessoa, o que afasta a idéia sentimental que temos Dele, mas nos aproxima de sua verdadeira essência.

Se depender da ciência, as céticas palavras acima encontram algum fundamento na biologia do século XXI, especificamente no campo da genética comportamental. Dean Hamer, geneticista americano, autor do livro "O gene de Deus" (Editora Mercuryo, 2005), gerou forte polêmica ao considerar que o Todo Poderoso pode ser apenas uma seqüência de nosso código genético. Na verdade, o velho Dean afirma que o gene determinaria a predisposição à fé nos humanos, não sendo exatamente o próprio Deus. Mas, como um bom título também estimula as vendas, a polêmica foi instaurada. O gene isolado por Hamer e sua equipe, no Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, é identificado pela sigla vmat2. Estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro, conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Só para constar, o ecstasy e o Prozac influenciam positivamente o humor alterando os níveis de serotonina em nosso sistema nervoso. Hamer chegou à descoberta por acaso, analisando os hábitos de pacientes tabagistas, dentre os quais a disposição à espiritualidade. Todos aqueles que se disseram mais crentes em Deus, considerando-se mais místicos ou espiritualizados, apresentavam o tal vmat2.

Não é de agora que Dean Hamer causa polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho de DNA supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou-o à fama e depois à lama, quando outros cientistas falharam em replicá-la. Mas, olhando por aí, parece que esse cientista tem alguma razão dessa vez. Afirmo isso porque tenho a plena convicção de que, se realmente acreditássemos em Deus e em toda sua onipresente força, certamente não teríamos agido e não continuaríamos a agir de forma tão predatória em relação à vida.

Muitos daqueles que disseram crer em Deus promoveram e promovem a discórdia, patrocinaram e patrocinam a miséria, disseminaram e disseminam a violência, defenderam e defendem a ignorância, levaram e levam suas vidas com uma pobreza singular de espírito. Muitos são racistas, machistas, neo nazistas, terroristas e todo o tipo de falsos moralistas, só para não perder a rima. Também somos nós no dia-a-dia, no momento em que admitimos a desigualdade social de nosso país, a falta de ética de nossos governantes, a fome em nossos cidadãos, a submissão em nossos trabalhos, o autoritarismo de nossos professores, a intolerância de nossos pais, a hipocrisia de nossos semelhantes. Indicadores de nossa descrença em Deus, misturados à falta de cidadania, à falta de ética, à falta explícita de um norte espiritual que realmente fosse levado a sério. Só nos resta rezar. Não para Deus, mas para que a ciência consiga reparar o vmat2. Certamente há uma falha grave nessa seqüência genética.

11 março 2006

Liberdade condicional

Sempre gostei do som do U2, principalmente das letras de suas músicas, mas nunca levantei a hipótese de batalhar por um ingresso para o show do grupo em terras brasileiras. Tenho poucos gostos musicais, já não idolatro bandas ou cantores e nunca faria plantão para conseguir um lugar ao sol, como fizeram os fãs brasileiros de Bono "Vox".

Também tenho uma visão crítica (para não dizer ranzinza), sobre mega espetáculos regados a milhões, principalmente num cenário como o Brasil, onde faltam tostões para o pão diário de milhares de cidadãos. Nada contra os shows em si.

É o contraste que me incomoda, esse choque de nossa cotidiana pobreza com um momento único de gigantesco investimento financeiro. Neurose de quem vive num dos países mais desiguais do mundo. Também sentimento de culpa pela convivência incessante com os excluídos que vagam pelas ruas de São Paulo.

Querendo ou não, já se tornou inevitável pensar naquilo que poderia ser feito com os milhões de reais que a mídia investe em duas poucas horas de êxtase. Enfim, não sei se foi por minha declarada falta de idolatria, talvez por minha postura de "isso não é pra mim", acabei ganhando, de última hora, um ingresso para o show do U2. Veio pelas mãos de um amigo, por sua vez amigo de um empresário envolvido com os patrocínios do show. Pela reação dos que souberam, eu havia acabado de acertar na loteria, tamanha tinha sido a disputa pelos ingressos.

Durante o show entendi o porquê do delírio coletivo. Uma tecnologia de palco inédita no mundo, uma banda de rock politicamente correta, um vocalista engajado em causas humanitárias e um estádio no bairro mais nobre de São Paulo. Para completar, uma noite de calor e céu limpo, pouco comum nessa poluída metrópole.

Há pouco tempo pedi, em outro texto deste blog, um distanciamento temporário da angústia provocada pela miséria das ruas de São Paulo. Pedido feito, pedido aceito, pelo menos por duas horas foi me dada a chance de subir à tona, antes de voltar à realidade de exclusão. Durante essas duas horas, conforme as mensagens humanitárias ganhavam o super palco tecnológico do U2, a sensação era de que o mundo poderia dar certo. Ali, naquele instante, vendo aquela multidão sensibilizar-se e apoiar as causas do grupo, até parecia fácil mudar a realidade. Tive a sensação de que era só sair dali e começar a batalha. Ilha da fantasia, eu sei, mas foi bom viver assim por alguns instantes.

Se muitos curtiram, outros partiram para o ataque. Li críticas ácidas sobre a forma como Bono e o U2 tratam os problemas do mundo. Os mais mau-humorados dizem que o grupo mistura alhos com bugalhos, ou seja, o problema da fome com as desavenças religiosas do oriente médio, a excludente economia mundial com os ideais etéreos de uma humanidade sem direita e esquerda, sem elite e pobreza.

Da forma como entendo, música, arte e cultura estão aí para mostrar como o mundo deveria ser idealmente, não para apresentar metodologias de como chegar até lá. Outros disseram que Bono equivocou-se ao procurar Lula para uma conversa. Além do encontro oficial, Bono também poderia ter se encontrado Zilda Arns, da Pastoral da Criança, ou Oded Grajew, do Instituto Ethos, duas lideranças importantes no campo de nossas ações sociais. 

No final das contas, tive minhas duas horas de folga. Seria bom viver sempre com essa sensação, mas a saída do show não deixou dúvidas de que o benefício de minha liberdade era por pouco tempo. Lá estavam as crianças de rua, os ambulantes desesperados, os excluídos pedindo mais um pouco de socorro. Começava a voltar à prisão da desigualdade.

A ilusão foi ficando para trás, enquanto caminhávamos pelas ruas do Morumbi. Durante a volta ao cárcere, foi estranho notar uma grande quantidade de casas com a placa de "aluga-se" pelas ruas do bairro, que já foi o mais luxuoso de São Paulo. Dizem que é por causa da insegurança crescente. Os moradores estão abandonando as mansões e mudando-se para prédios ultra seguros. Já disse que isso é atitude de elite que não se preza. Comecei a pensar em como estará o bairro do Morumbi no futuro. Parei de pensar no instante seguinte. Talvez não haja futuro... nem para mim, muito menos para os excluídos.
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Meu agradecimento especial ao amigo Paulo A. Cruz, que conseguiu o convite gratuito para o show.

08 fevereiro 2006

A que horas jantaremos?

- Como faremos daqui por diante? Sempre jantamos às sete!
- Homens livres não têm hora para jantar.
- Mas sempre fizemos assim! A que horas jantaremos?

O breve diálogo é entre um escravo e a cidadã revolucionária que veio decidida a libertá-lo. A cena é do filme "Manderlay", do cineasta dinamarquês, Lars Von Trier, um exímio questionador de alguns arraigados hábitos da sociedade americana. Por tabela, sua crítica estende-se ao restante de nosso contraditório mundo.

O roteiro de Marderlay transcorre durante os anos trinta do século XX, décadas após a escravidão ter chegado ao fim nos Estados Unidos. E ainda que a cena fizesse referência aos dias de hoje, seria inquestionável sua atualidade . A pergunta feita pelo empregado livre, sobre o horário do jantar após conseguir a própria liberdade, traduz muito da mentira inventada pelas sociedades ocidentais sobre o fim da escravidão. Por sinal, a mesma escravidão que nunca terminou, que se estende até os dias atuais, com brancos explorando negros e outras etnias.

Não sou sociólogo, nem antropólogo, mas não é preciso ser especialista para perceber que a libertação dos negros foi até onde interessava para os brancos. De uma certa fronteira em diante, não há qualquer liberdade concedida.

Liberdade só tem sentido quando todos, sem exceção, têm acesso aos seus direitos e os exercem em sintonia com os direitos alheios. O que ocorreu em fins do século XIX passou longe disso, pois as responsabilidades pelo fim da escravidão recaíram, basicamente, sobre os negros. Basicamente, os brancos conservadores disseram: "Fizemos nossa parte, fomos bons, agora se virem". Pura mentira com ares de bondade. Se o propósito de libertação dos negros fosse realmente nobre, direitos civis, políticos, trabalhistas, sociais e econômicos teriam sido compartilhados sem exceção.

No Brasil, a mentira da libertação do negro pode ser vista em qualquer lugar. Nossos irmãos estão se virando nas periferias, nos subempregos, na marginalidade, no salário de fome, nas gorjetas para amenizar a miséria, na liderança do tráfico de drogas, no preconceitos contra as cotas nas universidades, nos crimes dos quais são vítimas. E a maioria dos "homens brancos" sabe apenas lamentar o aumento da violência, sem perceber que seus antepassados e eles próprios inventaram uma mentira sobre a liberdade dos negros. E quem mente são os brancos, diga-se de passagem.