10 fevereiro 2010

Alma Livre Futebol Clube

Não sou adepto de nenhuma religião ou prática espiritual. Cheguei aos 40 anos tendo experimentado várias doutrinas, mas achando todas sacais e excessivamente dogmáticas. Por isso, acabo de fundar o ALFC - Alma Livre Futebol Clube, agremiação apolítica, apartidária e não religiosa. Não tive qualquer inspiração divina, nenhuma luz apareceu na minha frente e ninguém me entregou dois pedaços de pedra dizendo que não se pode matar o próximo. Óbvio que não pode matar seu vizinho, não precisa um pedaço de pedra dizendo isso. Mas... apesar de ser tudo livre, o ALFC também possui seus...

 10 Esclarecimentos

- Primeiro Esclarecimento: a Alma Livre é uma associação não-doutrinária, que aceita torcedores de qualquer crença ou de nenhuma crença, desde que estejam dispostos a abrir mão dos dogmas, medos, culpas e maluquices aprendidas em outras religiões.

- Segundo Esclarecimento: a Alma Livre não possui um deus único, muito menos deuses múltiplos, aqui não existe mono ou politeísmo. Aliás, sequer é necessária a adoção de um Deus. Cada sócio é livre e responsável para elaborar a ideia que bem entender de entidade superior. Também é livre para não elaborar nada.

- Terceiro Esclarecimento: a Alma Livre é um órgão voltado ao bem e não pode ser usado com fins de manipulação alheia. Serão automaticamente desligados todos os associados que tentarem doutrinar esta iniciativa.

- Quarto Esclarecimento: a Alma Livre não estimula o uso amuletos, símbolos, imagens ou quaisquer outros subterfúgios que façam alguém depender de um objeto para atingir alguma graça.

- Quinto Esclarecimento: a Alma Livre não se responsabiliza por milagres ou poderes paranormais desenvolvidos por seus membros. Não acreditamos que alguém possa andar sobre as águas ou transformar água em vinho... a não ser que seja um X-Men.

- Sexto Esclarecimento: qualquer fenômeno considerado estranho será analisado à luz da ciência, a única entidade que explica coisas neste mundo.

- Sétimo Esclarecimento: a Alma Livre jamais possuirá sede própria, muito menos emprestada, cedida, doada ou ganha por usucapião. Acreditamos que a espiritualidade não requer espaço exclusivo para ser praticada, pode ser em qualquer sala, quarto, banheiro, praça, etc..

- Oitavo Esclarecimento: a Alma Livre não admite discriminação religiosa, espiritual, astrológica, adivinhatória, sexual, racista, étnica ou de qualquer outra origem. Já basta o Bolsonaro de idiota neste mundo.

- Nono Esclarecimento: todos os associados estão isentos de quaisquer sentimentos de culpa que possam causar danos psicológicos (transitórios ou permanentes), a si mesmos ou a outros. Culpa é ideologia de dominação de outras religiões, aqui se pratica auto-crítica e perdão.

- Décimo Esclarecimento: os Esclarecimentos entram em vigor na hora que cada um bem entender.

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08 fevereiro 2010

Tomate, Cebola e Sexo

Tenho a sorte de já ter convivido e de continuar convivendo com pessoas que falam de sexo como se falassem da feira semanal. Falam de masturbação, gozo, sex shop ou trepada com a naturalidade de quem fala de tomate ou cebola.

Não se consegue fazer isso de uma hora para outra. É preciso encontrar pessoas que encarem o sexo com menos tabu do que a sociedade normalmente encara. É difícil encontrá-las por aí.

Também não é fácil perder o constrangimento diante do assunto, isso é algo que acontece aos poucos. É como andar de bicicleta... tarefa insegura no início, mas que depois torna-se natural. Chega uma hora que se encara o sexo com naturalidade, sem pudores, medos ou conservadorismos.

Esta postagem é uma homenagem a essa ideia, da qual sou um defensor. E minha homenageada é a sexóloga e apresentadora, Mõnica Moreira Lima, ou só Mõnica Lima. Mônica tem um canal no YouTube chamado "Sem Vergonha", onde fala de sexo muito mais naturalmente do que de qualquer feira, tomate ou cebola deste mundo.

Este link direciona para o programa de Mônica sobre Orgasmo Feminino. Vale a pena assistir. Vale a pena começar a encarar o sexo sem tabus. E Mônica Lima é especialista nisso.

https://www.youtube.com/watch?v=4Ju9OiHjWj4


07 fevereiro 2010

A reflexão perdida


Pergunto, mas não me respondem.
Ouço, mas pedem que eu não escute.
Faço, mas dizem para não fazer.
Vou, mas tentam me segurar.
Volto, mas tentam me impedir.
Protesto, mas tentam me calar.
Mostro, mas dizem que não veem.
Então me calo, como um morto.
Afirmam, finalmente, que estou vivo.

Estou parado em frente à tela de meu blog há um bom tempo, tentando elaborar frases de efeito para iniciar esse texto. Consegui elaborar essas acima. Já havia escrito algumas orações mais convencionais, mas nada parecia ter o impacto que pretendia dar ao assunto. Talvez seja o calor deste domingo de fevereiro, mas me recuso a culpar o clima pelo vazio momentâneo de ideias.

É curiosa essa dificuldade para achar as palavras certas, montar a estrutura adequada de raciocínio. Escrever não é tarefa fácil, todos sabem disso. Mas há algo logicamente construído por detrás dessa dificuldade, uma espécie de sombra que se projeta sobre a capacidade de reflexão de inúmeras pessoas.

A dificuldade de escrever não é apenas falta de prática ou de muito estudo sobre gramática. É uma dificuldade imposta de propósito em muitos países e sistemas educacionais. É uma dificuldade completamente artificial, programada desde nossa infância.

Não é interessante que qualquer pessoa saiba expressar muito bem suas ideias e valores. A boa escrita determina a classe social da qual viemos, é uma espécie de passaporte diplomático, algo que poucos possuem. É a forma que as classes mais dominantes possuem de exercer pressão sobre as classes menos privilegiadas. Ideias expressas em letras tornam-se livros. Livros tornam-se instrumentos ideológicos. E ideologia é uma forma antiga de dominação.

Faço parte de uma geração que foi estimulada a pouco escrever. Recebemos educação escolar e familiar aos montes, mas sempre em doses bem controladas. Sou fruto de um sistema social e educacional onde se ensinava a engolir pensamentos, ao invés de manifestá-los. Impulsos como reflexão, crítica, questionamento e curiosidade eram tratados com muito cuidado por educadores, pais e sociedade em geral.

Nasci no início de 1970, poucos anos após o golpe militar que cravou a indigna ditadura no Brasil. Tão indigna, que minha infância e adolescência foram cercadas por um currículo escolar fragmentado em disciplinas desconexas, especialmente elaboradas para serem decoradas, jamais questionadas.

Passei quase minha vida inteira em escola pública, considerada referência de qualidade à época. Apesar do currículo engessado em matérias isoladas, era o que havia de melhor dentro do regime ditatorial que vigorava no Brasil. Mas esse 'melhor' era até a segunda página, depois disso o sistema educacional transformava-se numa sequência de fatos, fórmulas e regras decoradas. E decorada não significa aprendida a partir de alguma reflexão. Já comentei sobre isso em outro post

Essa pedagogia da alienação surtiu alguns efeitos. Aprendemos a pensar sim, mas meio às avessas. Como era impensável criticar professores e diretores, aprendemos a engolir nossos protestos e a pouco externar nossas opiniões. Como não nos ensinaram a razão da pobreza e da riqueza, aprendemos que os bens materiais definem o caráter das pessoas.

Como não nos ensinaram filosofia, não aprendemos a distinguir o mundo falso do mundo real. Como não nos ensinaram sociologia, não aprendemos sobre a estrutura desigual de nossa sociedade.  Há essas e outras falhas em minha formação... e o tempo parece escasso para desprogramá-las.

Criei meu blog justamente para exercitar o senso crítico que pouco exercitei durante meus anos escolares. Escrevo, portanto, para salvar a mim mesmo, pois sou um náufrago da má pedagogia. Sei que há muitos outros náufragos à deriva, pessoas que ainda falam, criticam, expressam, combatem, reflitem. Se você fizer o mesmo, muitos saberão que também sobreviveu.
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Imagem: http://niilismo.net/galeria/pictures/repressao.jpg

03 fevereiro 2010

Paixão virtual

De: Tímido 39
Para: Descolada 34
Assunto: Olá!

Olá, vi seu perfil e sua foto e te achei super interessante. Faz apenas dois dias que me cadastrei aqui e ainda estou vendo se este site é interessante... na verdade, foi uma amiga que insistiu para que criasse um perfil. Enfim, se quiser conversar, entre em contato, posso te enviar fotos.
Bjs,
Tímido 39
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Fui um garoto tímido durante minha infância e adolescência. Tímido talvez não seja o melhor adjetivo, quem sabe fosse só uma criança introspectiva. Ou as duas coisas, sei lá! De qualquer forma, sempre fui muito tímido em relação às garotas, como são quase todos os adolescentes. Tive algumas paixões platônicas, mas não me declarei a niguém, ... afinal, como se declarar à amada quando se é criança ou adolescente? Se até hoje não tenho a resposta, quanto mais naquela fase.
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De: Descolada 34
Para: Tímido 39
Assunto: Re: Olá

Olá, Tímido 39! Tudo bem com você?! Gostei bastante do seu perfil também! Acho que temos alguns pontos em comum... Como não sou assinante ouro do site, só posso ler e responder a 1 mensagem sua. Bjs, Descolada 34
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Pois é... quase 40 anos de vida e só agora consigo cantar garotas de uma forma minimamente civilizada. Mas o mérito não é meu, é de um site de relacionamento onde me cadastrei há poucos dias. Cadastro feito a contragosto, devido ao preconceito que descobri ter contra sites assim. Minha impressão é que estou num grande classificado emocional, como aqueles que apareciam no mundo machista das revistas eróticas dos anos de 1970 a 1990, antes do surgimento da internet.

O site em questão é uma grande rede social de pessoas buscando relacionamentos. Homens e mulheres atrás de homens e mulheres, ou seja, há opções para todos os tipos de sexualidade. Há um filtro de pesquisa bastante detalhado para a busca da alma gêmea, onde o internauta seleciona o que está procurando. A lista do filtro é imensa: relacionamento homo ou heterossexual, idade, município, cor dos cabelos, dos olhos, estatura, cor da pele, se a pessoa tem ou não tatuagem... enfim... você consegue encontrar a parceira ou parceiro ideal clicando aqui e ali.

O site também cobra das pessoas que o visitam. Se você não for assinante ouro, as possibilidades de interação com outras pessoas ficam bem limitadas. Pois é... paguei 34 reais para ser ouro e paquerar as garotas com todos os recursos virtuais disponíveis, como mensagem, piscadinha, bate-papo e por aí vai. Meu preconceito não mudou uma vírgula após meu pagamento, continuo achando a iniciativa um grande mico.
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Timido 39: Olá, tudo bem?
Descolada 34: Tudo bem! Me conta mais de você...
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A conversa começou a ficar melhor a partir daí. É muito mais tranquilo paquerar online do que ao vivo. Algumas barreiras da timidez simplesmente desaparecem, já que nem eu sei quem é a pessoa e vice versa (as fotos do perfil são verdadeiras, os nomes não).

Achei Descolada 34 o máximo! Inteligente, perspicaz, ótimas sacadas e um super bom humor! Aliás, foram essas as características que havia selecionado quando criei minha parceira ideal no site. É como brincar de Deus criando Eva. Ou de Eva criando Adão. A sensação é legal, assim como é legal o sentimento de se apaixonar pelas fotos de perfil.

Meu preconceito foi desmoronando conforme visitava perfis e tinha conversas agradáveis. Fantástica essa possibilidade de virtualizar a paquera, o namoro, até um possível casamento. É uma grande ajuda não só para pessoas tímidas, mas para pessoas que já não têm pique para ir à baladas procurar o par ideal. É algo discreto, descontraído, uma iniciativa ótima para quem está na faixa dos 30, 40, 50 ou até mais ou menos. 

A paquera com Descolada 34 não foi muito longe. Assim como eu utilizo a busca para encontrar meu par ideal, ela o faz para achar o homem ideal. Desencontramos. Paciência. Acabou dando certo um encontro com outra pessoa que conheci no mesmo site. A vantagem é que já cheguei ao encontro com meio caminho andado, pois ambos sabíamos que estávamos ali por causa de um site de relacionamentos. Não vou precisar passar por aquela fase às vezes chata dos rodeios, das meias palavras, de minha histórica timidez. Também foi por terra meu preconceito contra sites desse tipo. Dois benefícios num pacote só: vencer a timidez e acabar com um preconceito. Vantagens de uma época em que até os sentimentos são virtuais.
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Nota: Tímido 39 e Descolada 34 são nomes fictícios. No site tínhamos outros codinomes. 

30 janeiro 2010

O céu para nadar

Dou um impulso em direção ao céu. Meu corpo decola facilmente.Tem inicio, mais uma vez, o voo tão esperado. Ganhar altitude não é difícil, pois me sinto à vontade na decolagem. Pareço, no entanto, uma criatura alada estranha, pois não bato asas e não mantenho a postura quase imóvel dos super-heróis. Ao contrário, saio nadando em pleno ar! Sim, estou voando! Mas, ao invés de bater asas, movimento os braços para nadar, como se estivesse em plena água. Sinto meu corpo transbordar de êxtase e felicidade, a sensação é indescritível!

Conforme me afasto do solo, acelero o ritmo de braçadas e ganho velocidade. Estou no céu de minha cidade. Domino a atmosfera, aproveito para voar por locais familiares, minha escola, meu clube, a praça. Sem dificuldade, mudo o estilo em pleno ar, alternando entre costas, borboleta e peito, este último, minha especialidade.

Contudo, aos poucos sinto que minha energia começa a se esvair. Volto ao nado livre para poupar meu voo, mas minha força continua a se esgotar. Procuro nadar, rapidamente, em direção a terra, tentando evitar a queda iminente. Apesar da pressa do retorno, a sensação continua sendo de prazer. Neste momento, abro os olhos e acordo! Seguem-se alguns segundos, até me localizar, novamente, em meu quarto. Saio do estado de confusão e entendo que meu sonho predileto ocorrera mais uma vez. Sinto-me um pouco assustado, é verdade. Mas, acima de tudo, sinto prazer por ter voado mais uma vez.

Esse sonho é algo recorrente em minha vida. Muita gente sonha que está voando, eu sei disso. Mas nunca procurei saber quantos sonham estar nadando em pleno ar. Como já comentei em outros textos, comecei a nadar muito cedo, mais precisamente aos quatro anos de idade. Mal havia dominado o ato de andar sobre duas pernas e lá estava meu corpo na água, ambiente que se tornou tão familiar quanto o terrestre.

Nadar não foi a única habilidade que desenvolvi nessas quase quatro décadas de vida. Também aprendi a reconhecer minha força física e minha capacidade emocional para superar treinos extenuantes e muitas, muitas dores mesmo. Não que controlar e suportar a dor seja algo muito positivo, mas é uma condição exigida de qualquer atleta. Da mesma forma que aprimorei meu físico, desenvolvi habilidades emocionais e sociais com a natação. Como integrante de uma equipe talentosa do interior paulista, fui exposto á inúmeras situações que estimularem a formação de meu caráter.

Tantas experiências positivas acabaram por também definir minha carreira profissional. Sou um dos integrantes da primeira turma do curso de Bacharelado em Esporte, da Universidade de São Paulo. Experiência acadêmica inédita colocada em prática a partir de 1992 na USP. O novo curso atraiu pessoas que haviam respirado o esporte com o mesmo entusiamo e com a mesma paixão que eu. Foi nesse mundo acadêmico que encontrei minha vocação para a docência no ensino superior.

De nadador compulsivo, transformei-me em professor e pesquisador. Nessa trajetória, tive a grata oportunidade de trabalhar ensinar natação para crianças, adolescentes e, principalmente, para portadores de deficiências, tentando ensinar natação àqueles que me ensinaram a viver quase sem limites. Ensinei meus alunos a dominar o mundo aquático. Passei adiante aquilo que vivi em toda minha vida.

O mundo aquático funde-se entre minha realidade e minha fantasia. Na verdade, tenho a impressão de que não parei de sonhar até hoje. Das primeiras braçadas em minha infância, passando pela carreira de atleta, até chegar à profissão que abracei, tudo passou pelo significado da natação e da água em minha vida. E se venci a força da gravidade com minhas braçadas, creio que nada mais é impossível nessa vida.

05 janeiro 2010

Give peace more chances

Milhões de seres humanos pedem, todo final de ano, que haja mais paz no ano seguinte. Às vezes conseguimos acalmar nossas vidas, a vida de alguns próximos, mas muita gente desvia da paz de propósito. Estou na "batalha" por um mundo melhor, muita gente está e milhares de outros já estiveram. Uma hora a gente vence, tenho certeza disso! "Give peace a chance" é uma música que nunca nos deixará esquecer de nosso maior objetivo.


11 julho 2009

20 Ave-Marias e 10 Pai-Nossos


Tinha nove anos quando me confessei pela primeira (e única) vez, experiência que ainda trago em minha memória. Era 1979 e a confissão foi o resultado das aulas de catecismo que fui levado a frequentar. Aquele precoce curso de teologia foi concluído ao final daquele ano, após um exame final que incluía uma confissão obrigatória para a absolvição de meus pecados. Pecados de uma criança de 9 anos...

Minha experiência no catecismo é um exemplo de aprendizado sem sentido para uma criança. Atualmente, vejo que aquele foi o momento errado para aprender um conteúdo que exige o mínimo de reflexão e senso crítico. Do ponto de vista social, foi o momento certo para iniciar um processo de alienação que leva o ser humano a incorporar crenças espirituais como verdades absolutas. É o momento em que os adultos nos alertam: aceite tudo o que lhe dissermos e não questione nada, pois será assim sua vida toda.

É difícil listar o que considero mais equivocado no processo de conversão do ser humano a uma religião, seja ela qual for. No meu entender, a oposição a qualquer questionamento é o ponto mais negativo desse processo. Desde a infância, somos levados a aceitar doutrinas dogmáticas como reais e imutáveis. Para as religiões em geral, questionar quaisquer de seus princípios é um ato que merece ser punido, seja com o peso da culpa, seja visitando o inferno após a morte. Pensar é heresia. 

É fácil convencer uma criança a crer em qualquer coisa, basta contar-lhe uma estória bem legal. E eu achei massa a estória do cristianismo, até porque soava como as fábulas que gostava de ler e ouvir: havia um mocinho com poderes, cercado por 12 super amigos, lutando contra um vilão traidor e um rei malvado. Apresentaram-me os personagens, mas omitiram questões importantes. 

Não me disseram, por exemplo, que o vilão histórico do Cristianismo foi a própria Igreja Católica, que perseguiu, torturou e matou milhares de pessoas que discordaram de suas verdades durante séculos. Não me contaram que o "Não matarás" foi transgredido por poderosos que se diziam representantes de Deus. Também não me contaram sobre as riquezas exorbitantes do Vaticano e sobre seus Papas autoritários. Ok... jamais contariam isso à uma criança, não contam nem aos adultos.

A etapa final do catecismo previa uma absurda confissão de pecados por parte de todas aquelas crianças. Ainda me lembro da fila infantil aguardando a chamada ao confessionário da catedral. Momento de puro temor, pois não sabia bem o que era pecado, é difícil saber até hoje. Tinha apenas consciência de que eram coisas consideradas erradas sob a ótica adulta. Com isso em mente, listei transgressões como "eu brigo com meu irmão", "corro demais na escola" e "levo bronca todo dia". Chegada minha vez, dirigi-me ao confessionário carregando o peso do mundo em meus ombros. Ajoelhei-me e pronunciei os pecados que havia decorado minutos antes. A penitência foi dada sem vacilo: 

- Vinte Ave Marias e dez Pai Nossos.

Se aquele padre tivesse qualquer bom senso, certamente diria: "É tudo brincadeira, meu jovem... você não é um pecador, que bobagem isso tudo!". Mas não... a noção de pecado deve ser construída desde cedo, como forma de controle de sociedades que já vivem controladas. Esse controle moral vale para crianças, adultos e idosos. Vale na hora de transformar o sexo em tabu, a masturbação em algo proibido, o casamento em uma prisão. Bobagem sem fim, dominação sem fim, hipocrisia sem fim.

Voltei ao meu lugar após ouvir a sentença, ajoelhei diante dessa tal cruz e comecei a cumprir minha pena espiritual. Mas imaginar que rezas curam comportamentos é subestimar todo o avanço científico da humanidade. A psicologia, a psiquiatria e a neurologia fazem infinitamente melhor... e sem te encher o saco com dogmas. 

Na pressa, perdi a conta das orações, mas não me importei muito, apenas continuei balbuciando rezas para fazer o tempo passar. Quando achei que estava bom, levantei-me e fui embora a passos rápidos, ansioso por encontrar a próxima brincadeira pela frente. Saí dali para nunca mais retornar a um confessionário.

Minha vida religiosa começou dogmática assim. Felizmente, consegui me livrar daquele falso moralismo que tentaram me incutir. Mas essa carta de alforria não veio de graça, foi fruto de muita leitura, muito questionamento e muitos debates com amigos. 

Como resultado da liberdade, busquei outras religiões e filosofias na vida adulta. Frequentei o Budismo, o Espiritismo, fui a centros de Umbanda, conheci médiuns, fui atrás de curandeiros, fiz até curso de projeção astral, mas sem jamais aceitar dogmas de forma pronta. Passei a ser uma pessoa sem religião, vivendo naquela região entre o ateu e o agnóstico. Vou prosseguir assim, pois já paguei todos os meus pecados com as 20 Ave Marias e os 10 Pai Nossos de minha impecável infância.

09 julho 2009

Desliguem o aquecedor

Eu sempre gostei muito de frio, sou uma dessas pessoas que se estimula com a chegada do inverno, um maníaco que trabalha e pensa melhor com temperaturas abaixo de 20ºC. Gosto do calor também, mas somente para passar alguns dias descontraídos de férias, pegar uma praia e pronto. Já tive a oportunidade de comparar as situações, pois morei e trabalhei no litoral, no interior, em algumas capitais e também no exterior. Se pudesse optar pela catástrofe do aquecimento ou do resfriamento global, certamente ficaria com a segunda opção. O pior é que, cada vez mais, as estatísticas e dados científicos indicam que vou passar calor... e não será pouco.


Essa foto foi divulgada pela imprensa mundial nos últimos dias e mostra o Pólo Ártico em dois momentos muito próximos. O lado esquerdo da imagem representa a região no ano de 2005; o lado direito, a mesmíssima região em 2008. A coloração branca das fotos refere-se às camadas de gelo de maior espessura (4 metros ou mais). As regiões em azul escuro referem-se à camadas de gelo mais finas (até 1 metro de espessura). Não é preciso ser especialista para analisar o tamanho do estrago em apenas três minguados anos. É como se olhássemos para alguma região da Amazônia e visualizássemos floresta de um lado, desmatamento de outro. No caso do Ártico, a branca e espessa camada de gelo está, literalmente, indo por água abaixo em virtude do aquecimento global.

Cheguei, recentemente, de uma cidade localizada no litoral do Paraná. Fui a trabalho, mas consegui caminhar pela praia durante um dia de folga. Melhor dizendo... caminhei pelo que restava de praia... e garanto que não era muito. Sei que não é possível estabelecer uma relação direta entre a cidade em que estava, o fenômeno do aquecimento global e a elevação do nível dos mares. Porém, não vejo explicação mais plausível para a cena que presenciei: poucos metros de areia para caminhar, ondas quase atingindo o calçadão e um desgaste da orla que não parece natural e nem possível recuperar em curto prazo de tempo. Logicamente, há praias na cidade onde tudo parece normal, mas isso começa a se configurar como miragem no deserto: a praia está ali, mas pode não estar se a degradação mundial continuar em ritmo acelerado.

Não sou do time dos pessimistas, pelo contrário, sou daqueles que acreditam nas estratégias de mudança que vêm tomando forma desde fins do século XX. Como já mencionei em outros textos deste blog, atuo em ONGs e conheço muita gente que está na batalha em prol do meio ambiente e de causas sociais de todos os tipos. São pessoas incansáveis, que atuam tanto em empresas quanto em governos ou no terceiro setor. É um exército e tanto, espalhado por dezenas e dezenas de países, mas ainda pouco frente à dimensão do desgaste social e ambiental que ocorre em nosso mundo.

Por enquanto, aqueles que tentam consertar o estrago nadam contra a corrente, mas vários efeitos positivos já são sentidos, como pode ser visto nos sites que deixo relacionados ao final desse post. Se lhe sobrar um tempo, caro leitor ou leitora, dê uma olhada em alguns deles e procure contribuir da forma como puder, seja com doações, trabalho voluntário ou divulgando informação entre amigos, família, associações ou qualquer movimento do qual participe. Vamos lá, ajude a desligar o aquecedor global... está ficando quente por aqui...

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Conservação Internacional - Brasil: http://www.conservation.org.br/Greenpeace Brasil: http://www.greenpeace.org/brasil/WWF Brasil: http://www.wwf.org.br/Instituto Sócioambiental: http://www.socioambiental.org/Fundação SOS Mata Atlântica: http://www.sosmatatlantica.org.br/Fundação Gaia: http://www.fgaia.org.br/Conselho Nacional de Defesa Ambiental: http://www.cnda.org.br/Fundação O Boticário: http://internet.boticario.com.br/portal/site/fundacao/

Imagem retirada de http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/album/julho09_album.jhtm?abrefoto=4#fotoNav=17

19 junho 2009

1 bilhão de famintos

O dia 19 de junho acaba de entrar para a história carregando um dado estatístico aterrador: o número de famintos no mundo acaba de ultrapassar a marca de um bilhão de pessoas. A informação está no relatório sobre segurança alimentar recém lançado pela FAO - Setor da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Em comparação ao ano de 2008, mais de 100 milhões de pessoas entraram ou entrarão para o grupo de famintos em 2009. Significa que 1/6 da humanidade não terá calorias suficientes para viver um dia sequer com dignidade.

Em algumas postagens deste blog, relatei como percebia e sentia os efeitos da desigualdade social em minha própria vida. Não foram poucas as vezes em que cheguei a me deprimir ao encarar notícias como a de hoje, afinal, os números negativos são sempre grandiosos demais. A sensação de impotência diante de um quadro assim é frequente, mas hoje não escreverei palavras de lamentação, como fiz em textos passados. Hoje vou propor e dar dicas sobre como ingressar na luta para minimizar os efeitos dessa situação.

Primeiro passo: mexa-se! Eu, você e milhares de pessoas temos condições de contribuir com organizações sociais que combatem a fome, a miséria e a desigualdade social. Não é necessário contribuir somente com doações financeiras, apesar da inegável ajuda que isso representa. Também é possível auxiliar com trabalho voluntário, doações de recursos materiais, ou mesmo convocando a família, parentes e amigos para colaborarem nessa batalha. Não importa a via pela qual chegue nossa contribuição, garanto que qualquer ONG, grupo ou movimento social dará as boas vindas à ajuda que viermos a oferecer.

Se você não sabe por onde começar, procure a Secretaria de Assistência Social de seu município, vá à prefeitura, visite igrejas, informe-se sobre movimentos sociais e religiosos que auxiliam pessoas em situação de risco. Procure, também, a Ação da Cidadania de seu município, é provável que você encontre pessoas ligadas a esse movimento, concebido pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Tenho vários amigos que trabalham na Ação da Cidadania em minha cidade e todos são incansáveis batalhadores, sempre dispostos a fazer mais pelo próximo.

Sei que todas essas ações são emergenciais e não solucionam a questão da desigualdade social da forma como gostaríamos. A real luta contra as discrepâncias sociais requer uma mudança estrutural em nossa sociedade, uma mudança que transforme nossos atuais valores, nosso senso de ética, de responsabilidade e de cidadania. Requer, ainda, que pressionemos o poder público, empresas e organizações sociais em direção a um modelo de desenvolvimento socialmente justo. Isso tudo já começou a acontecer, conheço inúmeras pessoas e organizações que lutam por um mundo melhor. Mas, como dizia Betinho, "quem tem fome, tem pressa", e esses não estão dispostos a esperar pela revolução.

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Alguns sites da Ação da Cidadania:
www.acaodacidadania.com.br
www.acaodacidadania.org.br
www.acaodacidadaniasalvador.com.br

Sites recomendados por Norton Tavares, autor de um dos comentários desse post:
www.blogemacao.com
www.youtube.com/acaodacidadania
www.twitter.com/acaodacidadania

Notícia completa no site da FAO:
https://www.fao.org.br/vernoticias.asp?id_noticia=814

12 junho 2009

Tocando em Frente

Essa canção já é antiga, mas traduz muito de meu momento de vida atual. A composição é de Almir Sater e Renato Teixeira, dois grandes nomes da música brasileira. O vídeo tem boas imagens, a melodia é belíssima e a letra idem.