28 junho 2012
Hai!
São Paulo possui opções gastronômicas ímpares. Ontem fui jantar num restaurante chinês onde ninguém, ninguém mesmo, domina o português de forma razoável. Tudo começa com o “boa noite” do cliente, que é respondido com um “Hai” pelo garçom. Até aí, tudo bem, soa como no inglês e se assemelha a um cumprimento japonês. O bairro da Liberdade é assim mesmo, uma mistura única de hábitos orientais.
Pedi uma mesa para dois, mas o garçom nos levou até uma mesa para oito, com sistema giratório e um quadro dourado ao fundo, retratando uma pequena vila chinesa com 2 bilhões de camponeses.
- Amigo, eu pedi mesa pra dois, esta é pra oito.
- Hai!
- M-E-S-A... P-R-A... D-O-I-S... e fiz o 2 com os dedos.
- Hai!
- Ok, amigo, a gente senta aqui mesmo.
- Hai!
Mal nos sentamos e o cardápio foi arremessado sobre a mesa, parando na minha frente, de forma milimétrica. Assustado, olhei para o garçom, que acabara de surpreender outro cliente com seu arremesso ninja. O cardápio estava totalmente em chinês, com rudimentares descrições em português. Foi bem difícil decidir entre língua de pato com brócolis, pato com tofu ou macarrão frito com pato assado. Após uma difícil análise, questionei:
- Amigo, esse prato dá pra dois?
- Hai!
- "Hai" significa que dá?
- Hai!
Aquilo já estava me irritando, já não sabia se “Hai” era “boa noite”, “mesa pra oito” ou só um "pato com tofu".
- P-R-A-T-O... D-Á... D-O-I-S?
- Hai!
- Tá foda, murmurei baixo. O ninja se afastou e voltou com uma soda.
- Eu não falei soda, meu amigo.
- Hai!
Decidi não murmurar mais.
- Queremos este prato! (e apontei meu dedo para o macarrão com carne e frango, deixando o pato de lado).
- Hai!
- Ah... também queremos um...
Minha frase não se completou, Jackie Chan havia desaparecido de forma furtiva. O prato chegou poucos minutos depois, mas não havia só frango e carne. Conforme nos servíamos, foram surgindo pedaços de camarão, lula e frutos do mar. Chamei o garçom.
- C-A-M-A-R-Ã-O... L-U-L-A... não pedimos isso!
- Hai!
- Amigo, quem é o gerente?
- Hai!
- Mano... só avise ao cozinheiro que não dá certo misturar invertebrado marinho com vertebrado terrestre!
- Hai!
- Ok... a gente come... tá tudo certo... adoramos frutos do pasto com frutos do mar!
- Hai!
Certa normalidade voltou a pairar no transcorrer do jantar, até que, às 22:15 hs, a equipe da limpeza começou a lavar o piso do restaurante.
- Amigo, vocês já estão fechando?
- Hai!
- São 10 e 15 ainda... meio cedo, não acha?
- Hai!
- Vocês seguem o que, o horário de Pequim?
- Hai!
- MEU AMIGO, ESSE RESTAURANTE É UMA DITADURA!
- Hai!
- HAI É O CACETE!
- Hai!
Assisti a poucos filmes de Bruce Lee, mas descobri que não foram em vão. Enquanto socava o frango com lula na boca do garçom, consegui me desviar dos rodos que as mulheres ninjas da limpeza arremessavam contra mim. Chineses e japoneses da região vieram socorrer o conterrâneo e a Liberdade entrou em guerra. Baixou a polícia, a Yakuza, o Seu Miagui, Daniel-san, Van Damme, Steven Seagal e Ultraman. Neste momento, Chuck Norris está negociando a fiança de todos nós junto ao delegado, que também é chinês. A Liberdade jamais será a mesma. E eu jamais comerei alcatra com camarão novamente.
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Acredite, o nome do restaurante é Chi Fu: http://www.qype.com.br/place/496131-Chi-Fu-Sao-Paulo
25 março 2012
Torcida predial
Morar em apartamento em São Paulo é como estar na própria arquibancada em dia de jogo. Mal começou a última partida entre palmeirenses e corinthianos, e os torcedores de diferentes andares começaram a se provocar.
Palavrões pipocaram aqui e ali, até que, lá do 11º, uma senhora gritou: "A PAZ DO SENHOR!". Súplica inútil. Os mais exaltados rebateram na hora: "CALA A BOCA!", "FUCK YOU!". Imediatamente, a senhora perdeu a fé e o amor ao próximo: "VÃO À MERDA!"... e bateu a janela.
Os moradores do 7º e 8º, todos são paulinos e neutros até então, também foram até suas janelas e pediram tolerância a todos. Tinham a vaga esperança de que pudessem assistir ao Discovery Channel em paz. Ledo engano.
A avalanche de insultos piorou após o primeiro gol corinthiano. E voltou a piorar após o segundo, também dos alvinegros. Irritados com os gritos de "CHUPA, PORCADA!", palmeirenses deixaram o fair play de lado e subiram as escadas até o 12º, dispostos a mostrar quem eram os porcos do prédio. Os corinthianos, avisados da movimentação pelo síndico da Gaviões, desceram em contra-ataque. Os são paulinos, já putos com a falta de classe da galera, deixaram a fleuma de lado e se juntaram aos palmeirenses.
Escrevo em meio aos destroços de meu prédio. Restos humanos de alviverdes, alvinegros e tricolores espalham-se ao meu redor. O síndico, corinthiano desde a fecundação, pega o celular para pedir reforços alvinegros. O zelador, palmeirense desde a vida passada, acerta-o com um mastro verde e desaba em seu último suspiro. O apocalipse atingiu a todos, é meu fim também. Só espero que não haja torcida no Céu.
Os moradores do 7º e 8º, todos são paulinos e neutros até então, também foram até suas janelas e pediram tolerância a todos. Tinham a vaga esperança de que pudessem assistir ao Discovery Channel em paz. Ledo engano.
A avalanche de insultos piorou após o primeiro gol corinthiano. E voltou a piorar após o segundo, também dos alvinegros. Irritados com os gritos de "CHUPA, PORCADA!", palmeirenses deixaram o fair play de lado e subiram as escadas até o 12º, dispostos a mostrar quem eram os porcos do prédio. Os corinthianos, avisados da movimentação pelo síndico da Gaviões, desceram em contra-ataque. Os são paulinos, já putos com a falta de classe da galera, deixaram a fleuma de lado e se juntaram aos palmeirenses.
Escrevo em meio aos destroços de meu prédio. Restos humanos de alviverdes, alvinegros e tricolores espalham-se ao meu redor. O síndico, corinthiano desde a fecundação, pega o celular para pedir reforços alvinegros. O zelador, palmeirense desde a vida passada, acerta-o com um mastro verde e desaba em seu último suspiro. O apocalipse atingiu a todos, é meu fim também. Só espero que não haja torcida no Céu.
22 maio 2010
Sobre a educação de filhos
Uma coisa que me chateia muito é ver uma criança sendo tratada de forma autoritária. Não estou falando de agressões físicas, mas do autoritarismo e da agressividade que vêm através do "não faça isso", do "não pode", ou só daquele irritante "não".
Outra coisa que me incomoda é lidar com pais que definem suas atitudes autoritárias como "boa educação". Infelizmente, hoje me deparei com as duas situações ao mesmo tempo. Nessas horas, minha providência é tentar colaborar de alguma forma, pois não gosto de ver uma criança entristecida. No entanto, minha colaboração é entendida, com certa frequência, como uma interferência negativa na "boa educação" que os pais dizem estar dando. Já me acostumei a ouvir a frase: "um dia você será pai, daí entenderá o que fazemos". Normalmente, dizem isso em tom de ameaça, previamente assumindo que eu terei atitudes semelhantes.
Há uma terceira coisa que também me irrita nessa estória: ver pessoas leigas em pedagogia desafiarem alguém que estudou essas áreas. Não sou professor à toa, não estudei modelos pedagógicos à toa, não trabalho com educação de crianças e jovens à toa. Ainda me falta aprender muito sobre isso tudo, ainda me falta a experiência de pai, mas autoritarismo é algo que sempre combati e combaterei... inclusive em minhas próprias ações.
Tenho um amigo que diz uma frase sábia: "eles não sabem que não sabem". Pois é assim que tenho visto muitos pais desde que comecei a trabalhar com crianças e jovens, há 15 anos. Simplesmente, os pais ignoram que não sabem pedagogia e que não entendem a mínima de educação. A esses pais desavisados, é importante lembrar que pouco ou nada conseguirão com suas atitudes autoritárias. Normalmente, conseguem o contrário daquilo que procuram atingir. Se querem educação, ganham deseducação. Se querem respeito, ganham desrespeito. Se querem autoridade, ganham filhos que os desafiarão cada vez mais.
Outra coisa que me incomoda é lidar com pais que definem suas atitudes autoritárias como "boa educação". Infelizmente, hoje me deparei com as duas situações ao mesmo tempo. Nessas horas, minha providência é tentar colaborar de alguma forma, pois não gosto de ver uma criança entristecida. No entanto, minha colaboração é entendida, com certa frequência, como uma interferência negativa na "boa educação" que os pais dizem estar dando. Já me acostumei a ouvir a frase: "um dia você será pai, daí entenderá o que fazemos". Normalmente, dizem isso em tom de ameaça, previamente assumindo que eu terei atitudes semelhantes.
Há uma terceira coisa que também me irrita nessa estória: ver pessoas leigas em pedagogia desafiarem alguém que estudou essas áreas. Não sou professor à toa, não estudei modelos pedagógicos à toa, não trabalho com educação de crianças e jovens à toa. Ainda me falta aprender muito sobre isso tudo, ainda me falta a experiência de pai, mas autoritarismo é algo que sempre combati e combaterei... inclusive em minhas próprias ações.
Tenho um amigo que diz uma frase sábia: "eles não sabem que não sabem". Pois é assim que tenho visto muitos pais desde que comecei a trabalhar com crianças e jovens, há 15 anos. Simplesmente, os pais ignoram que não sabem pedagogia e que não entendem a mínima de educação. A esses pais desavisados, é importante lembrar que pouco ou nada conseguirão com suas atitudes autoritárias. Normalmente, conseguem o contrário daquilo que procuram atingir. Se querem educação, ganham deseducação. Se querem respeito, ganham desrespeito. Se querem autoridade, ganham filhos que os desafiarão cada vez mais.
Logicamente, há pais que são o oposto de tudo isso. Esforçam-se para respeitar os sentimentos e opiniões de crianças e jovens, pois compreendem que seus filhos também possuem suas próprias autoridades. Pais assim não seguem regras rígidas de horários, não definem o que seus filhos devem vestir ou os locais que devem frequentar. Criam filhos flexíveis o suficiente para interagir com um mundo que será cada vez mais diferente do que já foi um dia.
Como disse, ainda não tive a experiência de ser pai e reconheço a dificuldade em lidarmos com a educação formal e informal de nossas crianças. Sei que conversar e dialogar com jovens é um desafio e tanto, mas o autoritarismo é a pior estratégia nesse processo todo. Peço, portanto, um grande favor: sejam mais compreensivos e menos autoritários com seus filhos... as futuras gerações agradecem desde já.
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Imagem: http://migre.me/Hxnv
07 maio 2010
O fim da morte
Faz poucos dias que li uma reportagem sobre o "fim da morte". Trata-se de uma matéria sobre os avanços da ciênca e os impactos de novas tecnologias no avanço de tratamentos e cirurgias. Dentre os temas abordados estão as células-tronco, a terapia genética, a nano medicina e a produção de órgãos artificiais. É surreal a possibilidade de podermos discutir, já nesse início de século XXI, a possibilidade de a ciência vencer a morte.
Muita coisa vai mudar se conseguirmos prolongar a vida de forma a não temermos mais a morte. Alguns pontos de reflexão:
- Como serão nossos valores éticos diante da possibilidade de sermos imortais?
- Como pensarão os religiosos e crédulos diante da possibilidade de estenderem suas vidas? Continuarão acreditando na existência de um Deus após a morte?
- Como serão estruturados os sistemas de trabalho, saúde, alimentação e habitação? Haverá sistemas sociais que abriguem humanos com tamanha longevidade?
- Como serão nossas relações profissionais? Uma expectativa de vida ilimitada permitiria que tivéssemos várias carreiras durante uma longa existência. Poderíamos ser biólogos durante 20 anos, médicos durante 60 anos, físicos por mais 40, professores por mais 50.
- Como ficam as religiões e suas teorias sobre o mundo metafísico? Jogaremos tudo por água abaixo ou criaremos comunidades onde será permitido morrer em paz, de acordo com a religião de cada grupo?
- Caso não gostemos da ideia de vida eterna e optemos por morrer à moda antiga, quem teria coragem de sofrer e acabar com si mesmo, tendo a oportunidade de permanecer vivo e saudável?
Creio que todo mundo gostaria de viver sem a sombra da morte por perto, ninguém sabe o que vem depois de nossa breve existência. E na dúvida entre o Céu e o Inferno, prefiro ficar por aqui mesmo.
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Imagem: http://migre.me/CROb
Muita coisa vai mudar se conseguirmos prolongar a vida de forma a não temermos mais a morte. Alguns pontos de reflexão:
- Como serão nossos valores éticos diante da possibilidade de sermos imortais?
- Como pensarão os religiosos e crédulos diante da possibilidade de estenderem suas vidas? Continuarão acreditando na existência de um Deus após a morte?
- Como serão estruturados os sistemas de trabalho, saúde, alimentação e habitação? Haverá sistemas sociais que abriguem humanos com tamanha longevidade?
- Como serão nossas relações profissionais? Uma expectativa de vida ilimitada permitiria que tivéssemos várias carreiras durante uma longa existência. Poderíamos ser biólogos durante 20 anos, médicos durante 60 anos, físicos por mais 40, professores por mais 50.
- Como ficam as religiões e suas teorias sobre o mundo metafísico? Jogaremos tudo por água abaixo ou criaremos comunidades onde será permitido morrer em paz, de acordo com a religião de cada grupo?
- Caso não gostemos da ideia de vida eterna e optemos por morrer à moda antiga, quem teria coragem de sofrer e acabar com si mesmo, tendo a oportunidade de permanecer vivo e saudável?
Creio que todo mundo gostaria de viver sem a sombra da morte por perto, ninguém sabe o que vem depois de nossa breve existência. E na dúvida entre o Céu e o Inferno, prefiro ficar por aqui mesmo.
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Imagem: http://migre.me/CROb
05 maio 2010
Tu amas?
Responda com sinceridade: você já amou alguém sem sentir ciúmes? Já viveu uma relação onde não havia cobranças? Já se sentiu feliz quando seu parceira(o) lhe avisou que gostaria de fazer uma viagem sozinha(o)? Já aceitou o término de uma relação desejando felicidades na nova relação dela(e)?
É preciso ser candidato a santo para responder "sim" a essas questões. E só é difícil responder "sim" porque não aprendemos a amar sem sentir ciúmes, sem cobrar o próximo. Não aprendemos que pode ser uma grande prova de amor aceitar que o parceiro(a) queira viajar sozinho. Não aprendemos que relações duram em liberdade, jamais com nós atados. Não aprendemos que é possível dizer: 'Boa viagem, amor! Envie umas fotos da praia!'.
O mais comum é que respondamos "não" a uma ou a todas essas questões. Comum porque esses padrões de cobrança são considerados comuns em nossa sociedade. Cobrar o próximo é comum, ser ciumento idem, restringir a vida alheia também. É tão comum, que esses padrões de comportamento geram até violência doméstica, algo inclusive tolerado e até culturalmente justificado.
Amar uma pessoa significa tudo, menos ser proprietário dessa pessoa. O ciúme é uma forma de se apropriar do próximo através das próprias inseguranças, não uma forma de demonstrar afeto Esse apego, em boa parte dos casos, é apenas medo de perder o parceiro ou parceira em algum momento. Sei disso porque já fui ciumento, já cometi o pecado das cobranças irracionais por medo de perder alguém. Felizmente, consegui me livrar disso... não sei se muito ou pouco... mas me livrei em algum grau. É por isso que escrevo este texto.
Fiz 40 anos em fevereiro passado, tempo suficiente para compreender que "amor" significa muita coisa... menos ciúme, medo, apego ou qualquer sentimento menos nobre que exista por aí. Cheguei a essa compreensão após ter feito tudo ao contrário, ou seja, após ter nutrido os piores sentimentos em nome daquilo que eu também considerava "amor". Lógico que não somos carrascos emocionais o tempo todo, muito menos agimos assim de propósito. Somos apenas mal programados para amar... talvez por inexperiência pessoal, imaturidade... mas também por aceitarmos os padrões de amor que moldam nossa cultura.
Faz algum tempo que venho exercitando uma outra compreensão do que pode ser uma relação amorosa. Isso não garante que não cometerei mais pecados como ciúmes ou cobranças, mas me torna um indivíduo mais atento aos momentos em que isso ocorrer. Avancei alguns passos nesse universo de auto-compreensão, mas é necessário esforço contínuo para chegar a esse ponto, algo parecido a fazer uma atividade física: ou se pratica com frequência ou o condicionamento não melhora. Após errar muito, começo a acreditar que o sentido do amar significa gostar mais de mim mesmo do que de minha namorada. Gostar mais de si mesmo não significa ser egoísta na relação, mas nutrir a própria confiança, a auto-estima e a compreensão dos limites disso tudo. Parece simples quando se fala, mas não é simples quando se faz. É por isso que registro estas linhas, justamente para alertar sobre a necessidade de nos esforçarmos para não sermos tiranos emocionais. E se formos tiranos, faremos tudo nessa vida, menos amar. E acredite... isso é absolutamente trágico.
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Imagem: http://migre.me/Bcrf
09 março 2010
Ilha das Flores
Ilha das Flores é um documentário brasileiro, escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado, em 1989. É um curta-metragem que mostra, claramente, a insustentabilidade da estrutura social em que ainda vivemos. Em 1995, Ilha das Flores a crítica européia elegeu-o cum dos cem mais importantes curtas-metragens do século. Também está listado entre os "1001 filmes para se ver antes de morrer", no livro que leva esse mesmo título. Vale a pena.
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Informações sobre o filme retiradas da Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_das_Flores_(curta)
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Informações sobre o filme retiradas da Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_das_Flores_(curta)
02 março 2010
Sincericídio
Questão 1. Você marcou o primeiro encontro com aquela pessoa que paquera há algum tempo. Durante o primeiro jantar a dois, você age da seguinte forma:a) Procura passar a melhor imagem possível, abordando assuntos de forma cuidadosa.
b) Procura demonstrar descontração e expor seu lado cômico.
c) É absolutamente sincero em suas colocações, não importando o que a pessoa pensará a seu respeito.
Questão 2. Você consegue um ótimo emprego numa época em que a crise econômica domina o cenário mundial. Durante seus primeiros meses na empresa você age da seguinte forma:
a) Procura transmitir a imagem de uma pessoa eficiente e aplicada ao trabalho.
b) Procura agir com certa pró-atividade, trazendo ideias inovadoras aos seus superiores.
c) Na primeira reunião formal com a diretoria, diz a seu chefe que não suporta atrasos e solicita que ele seja mais pontual nas próximas reuniões.
Não é necessária a questão 3 para entender o espírito da coisa. As duas alternativas "C" são exemplos básicos e breves de um fenômeno bastante complexo: o "sincericídio”.
Como já foi possível perceber, sincericídio é uma junção entre as palavras "sinceridade" e "suicídio". Pode-se dizer que é o hábito de demonstrar sinceridade de forma incondicional, não importando a que ponto as palavras ou atos o levarão, nem as consequências que poderão advir de tal prática.
Isso não significa que os sincericidas sejam inconsequentes. Pelo contrário, são as pessoas mais consequentes desse mundo, justamente porque se esforçam para superar suas próprias mentiras e contradições. São abertos e jogam limpo o tempo todo. Fazem isso dentro da própria família, na relação a dois, no ambiente profissional e onde mais houver oportunidade.
Sincericidas possuem uma tolerância limitada para formalidades desnecessárias e jogos de cena. São muito reativos à falsidades, mentiras, hipocrisias. São responsáveis e esperam que ajam de forma recíproca.
Descobri, recentemente, que sou um potencial sincericida... ou um sincericida de fato, para ser mais sincero. Talvez seja efeito de minha chegada aos 40 anos, talvez seja o resultado do duro processo de aprendizado que tive até esta fase da vida. Não sou psicólogo, mas creio ser difícil identificar a origem psicológica do sincericídio. Sei, apenas, que é resultante de um conjunto de fatores que levam uma pessoa a perceber a efemeridade da vida.
O sincericídio é um caminho sem volta, mesmo porque ninguém sente necessidade de retorno quando trafega por essa via. O sincericida não defende seus erros, apenas os assume e procura corrigi-los. Não diz que não disse, apenas assume suas palavras e procura reforçá-las (em caso positivo) ou se desculpar (no eventual mau uso). Não inventa desculpas ou pretextos, apenas diz o que pretende fazer ou o que fez, para que os outros saibam com quem estão lidando.
Felizmente, tenho encontrado pessoas que estão dispostas a viver da mesma forma. Nem todas passaram por momentos difíceis como o meu, mas leram a mesma cartilha que eu li. Espero encontrar mais pessoas com esse pique daqui por diante, pois tenho tido extrema dificuldade para lidar com hipócritas. Pode acreditar no que digo, é a mais pura sinceridade.
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Nota: Su, obrigado pela inspiração para esse post. Adorei ter conhecido uma sincericida que compreende meu sincericídio. Você é realmente demais! Sinceros beijos!
Sincericidas possuem uma tolerância limitada para formalidades desnecessárias e jogos de cena. São muito reativos à falsidades, mentiras, hipocrisias. São responsáveis e esperam que ajam de forma recíproca.
Descobri, recentemente, que sou um potencial sincericida... ou um sincericida de fato, para ser mais sincero. Talvez seja efeito de minha chegada aos 40 anos, talvez seja o resultado do duro processo de aprendizado que tive até esta fase da vida. Não sou psicólogo, mas creio ser difícil identificar a origem psicológica do sincericídio. Sei, apenas, que é resultante de um conjunto de fatores que levam uma pessoa a perceber a efemeridade da vida.
O sincericídio é um caminho sem volta, mesmo porque ninguém sente necessidade de retorno quando trafega por essa via. O sincericida não defende seus erros, apenas os assume e procura corrigi-los. Não diz que não disse, apenas assume suas palavras e procura reforçá-las (em caso positivo) ou se desculpar (no eventual mau uso). Não inventa desculpas ou pretextos, apenas diz o que pretende fazer ou o que fez, para que os outros saibam com quem estão lidando.
Felizmente, tenho encontrado pessoas que estão dispostas a viver da mesma forma. Nem todas passaram por momentos difíceis como o meu, mas leram a mesma cartilha que eu li. Espero encontrar mais pessoas com esse pique daqui por diante, pois tenho tido extrema dificuldade para lidar com hipócritas. Pode acreditar no que digo, é a mais pura sinceridade.
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Nota: Su, obrigado pela inspiração para esse post. Adorei ter conhecido uma sincericida que compreende meu sincericídio. Você é realmente demais! Sinceros beijos!
10 fevereiro 2010
Alma Livre Futebol Clube
Não sou adepto de nenhuma religião ou prática espiritual. Cheguei aos 40 anos tendo experimentado várias doutrinas, mas achando todas sacais e excessivamente dogmáticas. Por isso, acabo de fundar o ALFC - Alma Livre Futebol Clube, agremiação apolítica, apartidária e não religiosa. Não tive qualquer inspiração divina, nenhuma luz apareceu na minha frente e ninguém me entregou dois pedaços de pedra dizendo que não se pode matar o próximo. Óbvio que não pode matar seu vizinho, não precisa um pedaço de pedra dizendo isso. Mas... apesar de ser tudo livre, o ALFC também possui seus...
10 Esclarecimentos
- Primeiro Esclarecimento: a Alma Livre é uma associação não-doutrinária, que aceita torcedores de qualquer crença ou de nenhuma crença, desde que estejam dispostos a abrir mão dos dogmas, medos, culpas e maluquices aprendidas em outras religiões.
- Segundo Esclarecimento: a Alma Livre não possui um deus único, muito menos deuses múltiplos, aqui não existe mono ou politeísmo. Aliás, sequer é necessária a adoção de um Deus. Cada sócio é livre e responsável para elaborar a ideia que bem entender de entidade superior. Também é livre para não elaborar nada.
- Terceiro Esclarecimento: a Alma Livre é um órgão voltado ao bem e não pode ser usado com fins de manipulação alheia. Serão automaticamente desligados todos os associados que tentarem doutrinar esta iniciativa.
- Quarto Esclarecimento: a Alma Livre não estimula o uso amuletos, símbolos, imagens ou quaisquer outros subterfúgios que façam alguém depender de um objeto para atingir alguma graça.
- Quinto Esclarecimento: a Alma Livre não se responsabiliza por milagres ou poderes paranormais desenvolvidos por seus membros. Não acreditamos que alguém possa andar sobre as águas ou transformar água em vinho... a não ser que seja um X-Men.
- Sexto Esclarecimento: qualquer fenômeno considerado estranho será analisado à luz da ciência, a única entidade que explica coisas neste mundo.
- Sétimo Esclarecimento: a Alma Livre jamais possuirá sede própria, muito menos emprestada, cedida, doada ou ganha por usucapião. Acreditamos que a espiritualidade não requer espaço exclusivo para ser praticada, pode ser em qualquer sala, quarto, banheiro, praça, etc..
- Oitavo Esclarecimento: a Alma Livre não admite discriminação religiosa, espiritual, astrológica, adivinhatória, sexual, racista, étnica ou de qualquer outra origem. Já basta o Bolsonaro de idiota neste mundo.
- Nono Esclarecimento: todos os associados estão isentos de quaisquer sentimentos de culpa que possam causar danos psicológicos (transitórios ou permanentes), a si mesmos ou a outros. Culpa é ideologia de dominação de outras religiões, aqui se pratica auto-crítica e perdão.
- Décimo Esclarecimento: os Esclarecimentos entram em vigor na hora que cada um bem entender.
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- Segundo Esclarecimento: a Alma Livre não possui um deus único, muito menos deuses múltiplos, aqui não existe mono ou politeísmo. Aliás, sequer é necessária a adoção de um Deus. Cada sócio é livre e responsável para elaborar a ideia que bem entender de entidade superior. Também é livre para não elaborar nada.
- Terceiro Esclarecimento: a Alma Livre é um órgão voltado ao bem e não pode ser usado com fins de manipulação alheia. Serão automaticamente desligados todos os associados que tentarem doutrinar esta iniciativa.
- Quarto Esclarecimento: a Alma Livre não estimula o uso amuletos, símbolos, imagens ou quaisquer outros subterfúgios que façam alguém depender de um objeto para atingir alguma graça.
- Quinto Esclarecimento: a Alma Livre não se responsabiliza por milagres ou poderes paranormais desenvolvidos por seus membros. Não acreditamos que alguém possa andar sobre as águas ou transformar água em vinho... a não ser que seja um X-Men.
- Sexto Esclarecimento: qualquer fenômeno considerado estranho será analisado à luz da ciência, a única entidade que explica coisas neste mundo.
- Sétimo Esclarecimento: a Alma Livre jamais possuirá sede própria, muito menos emprestada, cedida, doada ou ganha por usucapião. Acreditamos que a espiritualidade não requer espaço exclusivo para ser praticada, pode ser em qualquer sala, quarto, banheiro, praça, etc..
- Oitavo Esclarecimento: a Alma Livre não admite discriminação religiosa, espiritual, astrológica, adivinhatória, sexual, racista, étnica ou de qualquer outra origem. Já basta o Bolsonaro de idiota neste mundo.
- Nono Esclarecimento: todos os associados estão isentos de quaisquer sentimentos de culpa que possam causar danos psicológicos (transitórios ou permanentes), a si mesmos ou a outros. Culpa é ideologia de dominação de outras religiões, aqui se pratica auto-crítica e perdão.
- Décimo Esclarecimento: os Esclarecimentos entram em vigor na hora que cada um bem entender.
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08 fevereiro 2010
Tomate, Cebola e Sexo
Tenho a sorte de já ter convivido e de continuar convivendo com pessoas que falam de sexo como se falassem da feira semanal. Falam de masturbação, gozo, sex shop ou trepada com a naturalidade de quem fala de tomate ou cebola.
Não se consegue fazer isso de uma hora para outra. É preciso encontrar pessoas que encarem o sexo com menos tabu do que a sociedade normalmente encara. É difícil encontrá-las por aí.
Também não é fácil perder o constrangimento diante do assunto, isso é algo que acontece aos poucos. É como andar de bicicleta... tarefa insegura no início, mas que depois torna-se natural. Chega uma hora que se encara o sexo com naturalidade, sem pudores, medos ou conservadorismos.
Esta postagem é uma homenagem a essa ideia, da qual sou um defensor. E minha homenageada é a sexóloga e apresentadora, Mõnica Moreira Lima, ou só Mõnica Lima. Mônica tem um canal no YouTube chamado "Sem Vergonha", onde fala de sexo muito mais naturalmente do que de qualquer feira, tomate ou cebola deste mundo.
Este link direciona para o programa de Mônica sobre Orgasmo Feminino. Vale a pena assistir. Vale a pena começar a encarar o sexo sem tabus. E Mônica Lima é especialista nisso.
https://www.youtube.com/watch?v=4Ju9OiHjWj4
Não se consegue fazer isso de uma hora para outra. É preciso encontrar pessoas que encarem o sexo com menos tabu do que a sociedade normalmente encara. É difícil encontrá-las por aí.
Também não é fácil perder o constrangimento diante do assunto, isso é algo que acontece aos poucos. É como andar de bicicleta... tarefa insegura no início, mas que depois torna-se natural. Chega uma hora que se encara o sexo com naturalidade, sem pudores, medos ou conservadorismos.
Esta postagem é uma homenagem a essa ideia, da qual sou um defensor. E minha homenageada é a sexóloga e apresentadora, Mõnica Moreira Lima, ou só Mõnica Lima. Mônica tem um canal no YouTube chamado "Sem Vergonha", onde fala de sexo muito mais naturalmente do que de qualquer feira, tomate ou cebola deste mundo.
Este link direciona para o programa de Mônica sobre Orgasmo Feminino. Vale a pena assistir. Vale a pena começar a encarar o sexo sem tabus. E Mônica Lima é especialista nisso.
https://www.youtube.com/watch?v=4Ju9OiHjWj4
07 fevereiro 2010
A reflexão perdida
Pergunto, mas não me respondem.
Ouço, mas pedem que eu não escute.
Faço, mas dizem para não fazer.
Vou, mas tentam me segurar.
Volto, mas tentam me impedir.
Protesto, mas tentam me calar.
Mostro, mas dizem que não veem.
Então me calo, como um morto.
Afirmam, finalmente, que estou vivo.
Estou parado em frente à tela de meu blog há um bom tempo, tentando elaborar frases de efeito para iniciar esse texto. Consegui elaborar essas acima. Já havia escrito algumas orações mais convencionais, mas nada parecia ter o impacto que pretendia dar ao assunto. Talvez seja o calor deste domingo de fevereiro, mas me recuso a culpar o clima pelo vazio momentâneo de ideias.
É curiosa essa dificuldade para achar as palavras certas, montar a estrutura adequada de raciocínio. Escrever não é tarefa fácil, todos sabem disso. Mas há algo logicamente construído por detrás dessa dificuldade, uma espécie de sombra que se projeta sobre a capacidade de reflexão de inúmeras pessoas.
A dificuldade de escrever não é apenas falta de prática ou de muito estudo sobre gramática. É uma dificuldade imposta de propósito em muitos países e sistemas educacionais. É uma dificuldade completamente artificial, programada desde nossa infância.
Não é interessante que qualquer pessoa saiba expressar muito bem suas ideias e valores. A boa escrita determina a classe social da qual viemos, é uma espécie de passaporte diplomático, algo que poucos possuem. É a forma que as classes mais dominantes possuem de exercer pressão sobre as classes menos privilegiadas. Ideias expressas em letras tornam-se livros. Livros tornam-se instrumentos ideológicos. E ideologia é uma forma antiga de dominação.
Faço parte de uma geração que foi estimulada a pouco escrever. Recebemos educação escolar e familiar aos montes, mas sempre em doses bem controladas. Sou fruto de um sistema social e educacional onde se ensinava a engolir pensamentos, ao invés de manifestá-los. Impulsos como reflexão, crítica, questionamento e curiosidade eram tratados com muito cuidado por educadores, pais e sociedade em geral.
Nasci no início de 1970, poucos anos após o golpe militar que cravou a indigna ditadura no Brasil. Tão indigna, que minha infância e adolescência foram cercadas por um currículo escolar fragmentado em disciplinas desconexas, especialmente elaboradas para serem decoradas, jamais questionadas.
Passei quase minha vida inteira em escola pública, considerada referência de qualidade à época. Apesar do currículo engessado em matérias isoladas, era o que havia de melhor dentro do regime ditatorial que vigorava no Brasil. Mas esse 'melhor' era até a segunda página, depois disso o sistema educacional transformava-se numa sequência de fatos, fórmulas e regras decoradas. E decorada não significa aprendida a partir de alguma reflexão. Já comentei sobre isso em outro post
Essa pedagogia da alienação surtiu alguns efeitos. Aprendemos a pensar sim, mas meio às avessas. Como era impensável criticar professores e diretores, aprendemos a engolir nossos protestos e a pouco externar nossas opiniões. Como não nos ensinaram a razão da pobreza e da riqueza, aprendemos que os bens materiais definem o caráter das pessoas.
Como não nos ensinaram filosofia, não aprendemos a distinguir o mundo falso do mundo real. Como não nos ensinaram sociologia, não aprendemos sobre a estrutura desigual de nossa sociedade. Há essas e outras falhas em minha formação... e o tempo parece escasso para desprogramá-las.
Criei meu blog justamente para exercitar o senso crítico que pouco exercitei durante meus anos escolares. Escrevo, portanto, para salvar a mim mesmo, pois sou um náufrago da má pedagogia. Sei que há muitos outros náufragos à deriva, pessoas que ainda falam, criticam, expressam, combatem, reflitem. Se você fizer o mesmo, muitos saberão que também sobreviveu.
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