
Conforme me afasto do solo, acelero o ritmo de braçadas e ganho velocidade. Estou no céu de minha cidade. Domino a atmosfera, aproveito para voar por locais familiares, minha escola, meu clube, a praça. Sem dificuldade, mudo o estilo em pleno ar, alternando entre costas, borboleta e peito, este último, minha especialidade.
Contudo, aos poucos sinto que minha energia começa a se esvair. Volto ao nado livre para poupar meu voo, mas minha força continua a se esgotar. Procuro nadar, rapidamente, em direção a terra, tentando evitar a queda iminente. Apesar da pressa do retorno, a sensação continua sendo de prazer. Neste momento, abro os olhos e acordo! Seguem-se alguns segundos, até me localizar, novamente, em meu quarto. Saio do estado de confusão e entendo que meu sonho predileto ocorrera mais uma vez. Sinto-me um pouco assustado, é verdade. Mas, acima de tudo, sinto prazer por ter voado mais uma vez.
Esse sonho é algo recorrente em minha vida. Muita gente sonha que está voando, eu sei disso. Mas nunca procurei saber quantos sonham estar nadando em pleno ar. Como já comentei em outros textos, comecei a nadar muito cedo, mais precisamente aos quatro anos de idade. Mal havia dominado o ato de andar sobre duas pernas e lá estava meu corpo na água, ambiente que se tornou tão familiar quanto o terrestre.
Nadar não foi a única habilidade que desenvolvi nessas quase quatro décadas de vida. Também aprendi a reconhecer minha força física e minha capacidade emocional para superar treinos extenuantes e muitas, muitas dores mesmo. Não que controlar e suportar a dor seja algo muito positivo, mas é uma condição exigida de qualquer atleta. Da mesma forma que aprimorei meu físico, desenvolvi habilidades emocionais e sociais com a natação. Como integrante de uma equipe talentosa do interior paulista, fui exposto á inúmeras situações que estimularem a formação de meu caráter.
Tantas experiências positivas acabaram por também definir minha carreira profissional. Sou um dos integrantes da primeira turma do curso de Bacharelado em Esporte, da Universidade de São Paulo. Experiência acadêmica inédita colocada em prática a partir de 1992 na USP. O novo curso atraiu pessoas que haviam respirado o esporte com o mesmo entusiamo e com a mesma paixão que eu. Foi nesse mundo acadêmico que encontrei minha vocação para a docência no ensino superior.
De nadador compulsivo, transformei-me em professor e pesquisador. Nessa trajetória, tive a grata oportunidade de trabalhar ensinar natação para crianças, adolescentes e, principalmente, para portadores de deficiências, tentando ensinar natação àqueles que me ensinaram a viver quase sem limites. Ensinei meus alunos a dominar o mundo aquático. Passei adiante aquilo que vivi em toda minha vida.
O mundo aquático funde-se entre minha realidade e minha fantasia. Na verdade, tenho a impressão de que não parei de sonhar até hoje. Das primeiras braçadas em minha infância, passando pela carreira de atleta, até chegar à profissão que abracei, tudo passou pelo significado da natação e da água em minha vida. E se venci a força da gravidade com minhas braçadas, creio que nada mais é impossível nessa vida.