20 Março, 2010

Jesus foi pra balada

- Mãe, tô saindo pra balada!
- Jesus, meu filho, aonde vais?
- Vou curtir um pouco...
- Mas o que teu pai vai falar?
- Meu Pai já tá sabendo...
- Tome cuidado então...
- Se liga, mãe, sou da paz! Fui!


Jesus foi pra balada naquela noite e se divertiu muito. Paquerou, encheu a cara, dançou pra valer e papeou besteiras sem sentido. Uma noite típica da adolescência, idade onde tudo é presente e não há preocupações com o passado, muito menos com o futuro. Nessa fase, a única ordem é viver intensamente, com a energia dos hormônios ligada na voltagem máxima. Jesus abalou naquela noite e voltou para casa com o sol raiando. Obviamente, não acordou para o almoço de domingo. Seus pais, preocupados com a boemia do filho, cogitaram em proibí-lo de sair na noite da Galiléia. Mas... como se proíbe um dos filhos de Deus? Na falta de uma resposta razoável para essa questão, deixaram a ideia de lado e concluíram a refeição.

Jesus continuou curtindo sua adolescência anônima da forma como qualquer jovem faria. Encontrou inúmeras garotas interessantes, transou diversas vezes, conviveu com espiritualistas de diversas linhas, teve amigos e amigas com diferentes preferências sexuais, especulou muito sobre o sentido da vida, aprendeu sobre o amor ao próximo, questionou os fundamentos de sua própria existência, enfim, viveu intensa e absurdamente sua singular juventude.

Assim como saboreou o lado romântico da vida, Jesus também descobriu a obscuridade do mundo a sua volta. Experimentou o amargo gosto da violência, da intolerância, do preconceito e do ódio. Conheceu a natureza confusamente dúbia do Homem, justamente a dubiedade que o mataria tempos depois. Caminhou sobre o fio da navalha que nos divide entre o bem e o mal, tentando equilibrar-se na corda bamba das emoções.

Jesus Cristo procurou superar a condição humana, vivendo os amores e horrores inerente à existência em nosso planeta. Entretanto, aposto minhas fichas como ele não pediu a ninguém para ser lembrado em seu momento de maior sofrimento, imortalizado numa imensa e sangrenta cruz. Como bom alto astral que deveria ser, Jesus, certamente, gostaria de ser retratado pelo jeito descontraído que todos nós procuramos ter em nossas próprias fotos. Se existisse a câmera digital na Galiléia, tenho convicção de que ele posaria para uma foto sorrindo e apontando para as lentes, como se dissesse: - Aí, gente... essa é pra posteridade!

A foto e o breve texto desse post trazem a ideia básica que tenho sobre Jesus Cristo e sua vida. Estou cheio da imagem de sofrimento que nos persegue até hoje. Acho um saco essa neurose com cruz, pregos, espinhos, suor e sangue. Nunca gostei dessa representação e não vou mais alimentar essa compulsão social pela dor e pelo sacrifício. Mesmo porque, creio que Jesus continua se divertindo nas baladas celestiais, junto com os grandes mestres que também nos trouxeram mensagens semelhantes de amor. Agora, se me derem licença, vou para minha própria balada, pois também sou um filho dos Deuses.

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Imagem:
http://www.clubesanto.com/clube/wp-content/uploads/2009/01/dogma-jesus.jpg

5 comentários:

Carmen disse...

Evangelho de Jesus Cristo segundo Adriano. Fantástico. Jesus deve ter ficado na maior alegria ao ler. Eu fiquei!

P.S.: Não sei se você lembra de mim, eu sou a Carmen que escrevia "Resquícios do Dia" e se mudou para a Noruega. Tive um filho, que se chama Markus. Ele nasceu dia 03 de fevereiro e já vai começar na natação agora em abril, aos dois meses de idade. Aqui o pessoal começa cedo. Ele adora água... (o post scriptum ficou maior que o texto principal!)

Gipy disse...

Por alguma ração (que agora depois de ter lido seu post entendi) voltei no seu blog depois de um tempinho e encontrei essa maravilhosa historia de Jesus. É um dos melhores pontos de vista que já li e ouvi da Sua vida. Acho que é por essa imagem de um Jesus sofrido e triste que a maioria das pessoas procuram ele para pedir milagres e chorar suas penas, e a minoria acode para agradecer e compartir alegrias com Ele.

Há tempo que eu deixei de ir na igreja e não por não ter Fe mas porque por alguma ração chorava o tempo tudo. Seria a energia cheia de tristeza das pessoas, seria ver Meu Jesus tão triste e cheio de dor lá acima? Daí eu entendi que não preciso de um domingo de Fe, que minha vida em todo momento é assim: respeitando aos outros, amando minha família, ajudando estranhos e amigos, e ficar sempre agradecida da vida.

Adri... vamos combinar uma baladinha legal com esse Jesus tão legal que nos gostamos tanto... vamos?!

Adriano disse...

Minha querida Carmem, que pergunta é essa "você se lembra de mim?"??? Imagina que eu esqueceria a blogueira do saudoso Resquícios. Sinto falta de seus posts, mas entendo que a vida de mãe está lhe ocupando agora. Aliás, meus parabéns a vc e seu companheiro por trazerem o Markus ao mundo. Que ele tenha muita saúde, paz e amor nessa vida. E que seja um ótimo blogueiro como a mãe :) E obrigado pela leitura de meu humilde post, é bom saber que me apoia na ideia de Jesus. Evangelho segundo Adriano é ótimo, mas ainda não tenho essa pretensão. Ainda...

Adriano disse...

Gipy, você tem absoluta razão, as igrejas, catedrais, mosteiros, etc, são locais tristes e carregam uma energia de sofrimento que assusta os mais sensívels. Assim como você, deixei de ser católico há muito tempo... aliás, deixei de ter religião também. E só escrevi esse post porque saí para almoçar um dia desses num restaurante super legal, mas que tinha uma imagem de Cristo crucificado pendurada na parede. Estava me divertindo durante o almoço, mas aquela imagem da crucificação não me deixou em paz durante toda a refeição. É difícil se divertir quando há a imagem de alguém sofrendo em seu campo de visão. Acho que as pessoas não percebem mais isso. Como eu disse no post, chega de sofrimento, tanto para Jesus quanto para nós ;) Bjs pra você!

João Flávio Resende disse...

Adriano,
Que ponto de vista bacana sobre Cristo! Com certeza, Ele te deu toda a inspiração possível pra pensar e escrever desta forma.
É um texto a ser recomendado.
Abraços.